Publicar ou perecer (3). Por que NÃO publicar? – Leonardo da Vinci

Leonardo DaVinci

Meu colega o Prof. Deniol K. Tanaka e eu tivemos o privilégio de discutir por mais de uma vez o papel do artista Leonardo da Vinci na tribologia, em especiar suas contribuições no estudo do fenômeno de atrito e seus estudos sobre desgaste.

Nestas discussões chegamos sempre ao ponto de que Leonardo fazia o possível para não ser lido! Escrevia de modo que a leitura de seus textos pudesse ser feita apenas lendo-os em espelhos, pois quase sempre escrevia “ao contrário”.  O genial italiano temia ter suas idéias roubadas.
Afinal, de um lado, ele trabalhou como engenheiro militar para para o sanguinário Ludovico Sforza, Duque de Milão e, na mesma função, para o devasso e sanguinário César Borgia, Duque de Bologna. Por  outro lado, Leonardo tinha pendências com a igreja católica e devia temer a fogueira. Publicar talvez não fosse mesmo a melhor política!
Leonardo também não divulgava nem fazia cópia de seus escritos. No fim da vida, entretanto, passou um bom tempo organizando e classificando as milhares de anotações que fez ao longo da vida. Suas anotações, os chamados códigos (codici) que nos chegaram, trazem muitíssimas informações, e são apenas uma fração que chegou até nós, sendo que todo o resto se perdeu. Leonardo não teve o cuidado de enviá-los (nem de deixar em testamento que fossem) a uma biblioteca, igreja ou a algum de seus muitos patronos.
Com isto, seu trabalho se perdeu e suas contribuições ao estudo do atrito apenas chegaram até nós quando seus escritos foram redescobertos. Por isto as “leis” do atrito (e aqui destaco que não as defendo enquanto leis”) são atribuídas na literatura tradicional a Amontons e a Coulomb.
Se ele houvesse publicado, teríamos a seguinte cronologia de contribuições fundamentais sobre o fenômeno de atrito:
Da Vinci – 1495
L1) A força de atrito é proporcional à força normal.
L2) O coeficiente de atrito independe da área aparente de contato.
L3) O coeficiente de atrito depende dos materiais. (Esta descoberta de Leonardo é raramente relatada nos textos, mesmo os recentes.)
Amontons – 1699
L1,2, 3) Confirmaria as duas descobertas de Da Vinci de forma independente num belo exercício do método científico.
Coulomb – 1785
L4) O coeficiente de atrito independe da velocidade (nem sempre como relata o próprio Coulomb, mas esta ressalva é sempre esquecida na literatura contemporânea)‏. Coulomb muitas vezes recebe o crédito pela L3, o que mostra que mesmo publicando (Amontons), às vezes o trabalho de pesquisa não é adequadamente reconhecido!
Greenwood Williamson –  1968
L5) A área REAL de contato aumenta com o aumento da força aplicada. Esta descoberta finalmente justifica as “leis” 1 e 2.
Mas não foi assim que aconteceu e, então, as “leis do atrito” são conhecidas como leis de Amontons ou leis de Coulomb, sendo que os físicos (mais estudiosos) preferem “leis de Amontons” enquanto que os engenheiros (mais comodistas) preferem a expressão “leis de Coulomb”.
Para aqueles menos geniais e menos perseguidos que Leonardo, talvez não reste mesmo outro caminho se não ….publicar, a menos que seus patronos estejam comprando seus segredos de pesquisa!
Amilton Sinatora
Referência
SINATORA, Amilton; TANAKA, Deniol Katsuki. As leis do atrito: da Vinci, Amontons ou Coulomb?. Revista Brasileira de Ciências Mecânicas, Rio de Janeiro, v. 12, n. 1, p. 31-34, out.2007

Uma resposta para Publicar ou perecer (3). Por que NÃO publicar? – Leonardo da Vinci

  1. Deniol Tanaka disse:

    Quero parabenizar o Prof. Amilton pelo brilhante resgate de parte dos trabalhos do Leonardo da Vinci, principalmente do que se refere a atrito.
    Quero adicionar alguns comentários:

    a) Sabidamente, o da Vinci era PACIFISTA, embora tenha projetado materiais bélicos. Eu acredito que isto se deva a sua “necessidade” em exercer a ENGENHARIA, isto é ser Engenheiro, como pode ser observado na sua carta (Currivculum Vitae) que escreveu para o Ludovico e está no Codex Atlanticus f 391 r. Na época do da Vinci, engenheiro era Civil ou Militar, e ele se julgavfa ambos, e havia necessidade de ter um “protetor” para financiar os seus trabalhos e a engenharia militar seria o único caminho naquela época.

    b) No seu texto o Prof. Amiltom comenta: (…nem de deixar em testamento que fossem…) o que não é verdade. Ele deixou um testamento onde explicitamenta dava o seu dinheiro para os meios irmãos e as suas obras, incluindo manuscritos, pinturas e modelos (em madeira e metal) para o seu amigo Melzi. Este, o Melzi, levou todas as obras para Váprio, contratou dois tabeliões em tempo intergral para organizar e catalogar, mas não concluido devido a sua msorte. Orazio, seu sobrinho, não se interessou pelas obras do da Vinci, e vendeu parte para duque de Toscana e deu parte para o monge milanês Mazenta. Isto foi o início da dispersão dos seus trabalhos.

    c) Vale ressaltar que os trabalhos do da Vinci, vai muito além do atrito. Na verdade ele estudou a tribologia, onde o atrito foi apenas uma parte. Ele estudou o efeito o efeito da rugosidade, da dureza e a combinação destes, além do efeito do terceiro corpo, tais como lubrificante e abrasivo [Codex Atlanticus f. 77v-a].
    Explicitamente diferenciou o atrito estático do cinemático, como pode ser observado na sua anotação no Codex Forster f 132 v, onde ele registrou: “A força para iniciar o movimento é maior do que para parar-lo”

    Acredito que estas informações completam as informações apresentadas no texto, sem comprometer o Objetivo que é a discussão de Publicar ou Perecer.

    Quanro a isso, quero registrar o meu comentário a respeito do Leonardo da Vinci, que é o de GRANDE CIENTISTA, embora ele próprio se julgue Engenheiro como já mencionado.
    Tinha um curiosidade imensa da natureza e das leis que a governam a natureza, pois nada do que fez funcionava, e isto levava a novas hipóteses e novos experimentos. Ele foi o PRECURSOR do moderno pensamento científico, e que nos deixa uma grande lição: Se não funcionar, não desista, tente descobrir porque não funcionou… Mas, INFELIZMENTE ele guardou para sí todo o conhecimento adquirido durante a sua vida poreque temia que roubassem as suas idéias. Assim o ÚNICO PECADO do Leonardo, na minha opinião, foi a de não divulgar. Na verdade tenho dúvidas se ele NÃO QUERIA realmente PUBLICAR, porque existe uma obra que ele denomiou de “TRTATADO DA PINTURA”, e que segundo alguns biógrafos, ele tinha intensão de publicar, pois ele soube que Gutemberg tinha inventado a impressão alguns anos antes. Este Tratado é hoje parte do acervo do Vaticano.

    Assim, existem dúvidas quanto a intensão do da Vinci de PUBLICAR ou NÃO, mas isto não tira o mérito do comentário do Prof. Amilton, onde ele alerta para a NECESSIDADE da DIVULGAÇÃO dos conhecimentos, pois se os seus trabalhos (do da Vinci) fossem amplamente conhecidos, o Amontons, Coulomb e outraos não precisavem RE-DESCOBRIR as sua descobertas e a ciência e a humanidade teria ganho muito.

    Deniol Tanaka

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