Internacionalização da Pós-Graduação Brasileira.

01/03/2013
Maior presença de línguas estrangeiras nas universidades brasileiras contribuiria a internacionalizar.

Maior presença de línguas estrangeiras nas universidades brasileiras contribuiria à internacionalização.

Após ter lido este interessante artigo do colega professor Leandro Tessler sobre a necessidade de uma maior presença do idioma inglês nas universidades brasileiras, comecei a prestar mais atenção no assunto.

No mês de dezembro estive em Nancy (França) realizando atividades de coordenação do projeto CAPES/BRAFITEC. Esse projeto permitiu o intercâmbio de estudantes entre a UCS (Universidade de Caxias do Sul), onde sou professor, e a EEIGM, na área da Engenharia de Materiais. A sigla EEIGM quer dizer: “École Européenne d’Ingénieurs en Génie des Matériaux”, ou seja, é uma instituição de caráter europeu (não só francês) dedicada à graduação em Engenharia de Materiais. Nessa escola, os alunos devem falar, pelo menos, quatro línguas para obterem seus diplomas de “ingénieurs” (sendo o inglês obrigatório mediante certificado de Cambridge). Como a EEIGM faz parte de um consórcio de universidades, a “école” envia e recebe alunos de instituições da Alemanha, Espanha, Suécia, Polônia e Rússia (as parceiras). Daí a necessidade de ter pelo menos o inglês como língua franca, além das línguas dos respectivos países.

A EEIGM não é um caso isolado. Grande parte das instituições francesas de ensino superior possui sistemas de intercâmbio, já no nível de graduação, com outras instituições do mundo todo. Além disso, não só o inglês já está bem estabelecido no sistema francês de ensino e no nível de graduação (após grande reticência histórica) como também o mandarim é uma terceira opção que muitos acadêmicos já estudam e até falam.

Essas evidências me fazem pensar que não apenas é acertado debater a necessidade da língua inglesa no ensino superior, como também deveríamos pensar na obrigatoriedade da mesma. Humildemente, eu penso que estamos muito atrasados em termos de domínio de línguas no mundo universitário brasileiro quando comparado com um sistema evoluído como o francês.

Finalmente, acredito que a experiência linguística seja um dos pontos mais importantes do programa federal “Ciência sem Fronteiras” (do qual tenho, também, opiniões em contra por ter desprotegido o orçamento da Ciência e Tecnologia). É evidente que essa experiência ajuda a fortalecer a respectiva língua estrangeira do acadêmico em intercâmbio. O outro ponto de destaque do programa é conhecer um outro sistema de ensino.

Mesmo assim, eu entendo que um sistema de pós-graduação bilíngue é um tema que nós como professores universitários devemos pensar muito seriamente e a CAPES poderia ajudar a desenvolver, inclusive com normas e recursos específicos.

Carlos A. Figueroa

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Corte no orçamento de CTI + Ciência sem Fronteiras: mistura explosiva?

26/04/2012
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Bons recursos humanos deixam o Brasil pelo Ciência sem Fronteiras e orçamento de CT&I é cortado: como fica o dia-a-dia da pesquisa no país?

Entre correções e mais correções de qualificações e dissertações e ainda escrevendo artigos científicos, vou parar um momento e escrever sobre algo que venho pensando faz várias semanas: o corte no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O corte tem sido ampla e publicamente criticado. Dez entidades representativas da comunidade científica e da indústria brasileira assinaram um manifesto contra o corte e o descontento repercutiu também no exterior, como por exemplo na matéria publicada na Nature.

Vinte e três por cento de corte (sem considerar o corte já realizado em 2011) é uma fatia relevante que muda o rumo da excelente política científica e tecnológica brasileira que venho acompanhando desde o começo do meu doutorado, no ano 2000. O Brasil não só foi aumentando o investimento nesta área estratégica do desenvolvimento do país como também foi diversificando as áreas de interesse, abrangendo desde a ciência básica até o financiamento de projetos tecnológicos em empresas de todos os portes. O aumento do número de mestres e doutores formados, da participação na pauta de publicações e patentes nacionais e internacionais e do número de grupos de pesquisa, como também o incremento da infraestrutura laboratorial de universidades e centros de pesquisa são grandes conquistas. Esses resultados, devidos à aplicação de recursos públicos, deveriam despertar o orgulho de qualquer brasileiro(a).

Agora, esses 23% a menos (cerca de R$ 1,5 bilhão) mudarão, para pior, essa curva ascendente. Nesse contexto, chama bastante a minha atenção o programa “Ciência sem Fronteiras” (CsF), que usa recursos do estratégico MCTI. Baseado numa premissa mais do que relevante, a formação de recursos humanos de excelência, o CsF não sofreu cortes e, segundo entendo, está usando parte dos recursos normais do CNPq e da FINEP (ambos dependem do mesmo ministério).

Entretanto, a mistura explosiva de menos recursos materiais, devido ao corte de 23%, e menos recursos humanos, levados ao exterior pelo CsF, (o programa prevê 75 mil bolsas) sufocará os grupos de pesquisa brasileiros. Segundo minhas contas, as bolsas do CsF somam cerca de R$ 1 bilhão, sem considerar pagamento de matrículas de universidades particulares estrangeiras.

O efeito negativo do corte já está se manifestando com a marcada queda na oferta de editais no CNPq e FINEP. Atualmente, na página do CNPq temos majoritariamente editais relativos ao CsF. O edital Universal 2012, lançado recentemente, mistura 3 editais anteriores (Universal, Bolsas Apoio Técnico e Bolsas IC) e impossibilita o pesquisador beneficiado com o auxílio de receber outro auxílio Universal nos 3 anos seguintes.

Eu entendo que os recursos financeiros são finitos e devem ser usados racionalmente. Por isso, no meu entendimento, o lançamento do CsF em paralelo com um corte no MCTI não foi planejado o suficiente e provocará no sistema brasileiro da CT&I estragos que levarão anos para serem sanados.

Com relação à formação de recursos humanos no exterior, segundo a minha visão, já existem excelentes programas da CAPES (em nível de graduação e pós-graduação) e do CNPq (em nível pós-graduação) que permitem que, não só os nossos estudantes, como também os nossos professores e pesquisadores possam ter uma experiência diferenciada na exterior. Na minha vivência pessoal na comunidade científica brasileira, nunca ouvi estudantes, professores ou pesquisadores reclamando que não puderam ter uma experiência no exterior. Geralmente, quem quer e se compromete consegue recursos para isso. Nesse contexto, era necessário criar um novo programa e destinar mais recursos em bolsas, passagens e matrículas em universidades estrangeiras, ou bastava melhorar a gestão e a divulgação dos editais já existentes?

Então, a minha pergunta é: por que foi lançado num momento de corte orçamentário um programa que se superpõe com outros já existentes, em funções e objetivos, e que consome uma fatia dos recursos que deveriam ser destinados para alavancar jovens doutores e grupos de pesquisa em crescimento e já estabelecidos? Estou preocupado mais como cidadão do que como pesquisador. O futuro econômico e a soberania do país dependem da área de CT&I, e um desacerto nas políticas pode trazer um atraso considerável após anos de crescimento real nesta área.

Aproveito para divulgar o breve discurso do cientista Stevens Rehen (UFRJ), especialista em células-tronco, na ocasião da entrega do prêmio Faz diferença, do jornal O Globo. Stevens cita o significativo interesse da sociedade pela ciência e é aplaudido ao falar sobre o corte.  O vídeo, editado pelo laboratório de Stevens, mostra também o empresário Eike Batista, também premiado na mesma ocasião, declarando que “adora investir em ciência”.

Carlos A. Figueroa


Nicolelis e a Comissão do Futuro do MCT

10/03/2011

Miguel Nicolelis foi convidado e aceitou presidir a Comissão do Futuro do MCT, um cargo não remunerado e temporário.

O aceite gerou uma marolinha na imprensa, uma vez que o pesquisador havia manifestado sua opinião sobre a indicação de Aloizio Mercadante para o MCT da seguinte forma: “Estou curioso para saber qual é o currículo dele para gestão científica. Fiquei surpreso com a indicação, mas não o conheço. Não tenho a mínima idéia do seu grau de competência. Mas não fica bem para a ciência brasileira – um ministério tão importante – virar prêmio de consolação para quem perdeu a eleição. Não é uma boa mensagem. Mas talvez seja bom que o futuro ministro não seja um cientista de bancada, alguém ligado à comunidade científica. Assim, se ele tiver determinação política, poderá quebrar os vícios.”

Alguém na Folha de São Paulo levantou, por meio de um texto ambíguo, que o posto já havia amestrado o pesquisador, como se Mercadante fosse um toupeira que entrega a formulação da visão de futuro de seu ministério a um suposto desafeto, ou como se Nicolelis mudasse de opinião ao ganhar mais serviço para fazer!

A vantagem da marolinha é que temos mais uma pérola nicoleliana:
“Em resposta à nota publicada no Painel de 20/02, gostaria de declarar que, em momento algum, alterei quaisquer das críticas feitas ao atual modelo de gestão da ciência brasileira em decorrência do recente convite, feito pelo senhor Ministro da Ciência e Tecnologia, para presidir a Comissão do Futuro, proposta por esse ministério. Quando disse, em entrevista ao Estado de S. Paulo, em dezembro passado, que o Ministério da Ciência e Tecnologia não podia ser considerado como um prêmio de consolação, não estava emitindo nenhum juízo de valor sobre a pessoa do senhor ministro Aloízio Mercadante, mas simplesmente reivindicando o reconhecimento do novo governo à importância fundamental da área de ciência e tecnologia para o desenvolvimento do Brasil. Da mesma forma, desde o convite e anúncio formal do mesmo, no último dia 13/02, não emiti nenhuma declaração ou qualquer avaliação da presente gestão do MCT. Dessa forma, estranha-me ler nesse jornal a insinuação que, um convite para presidir, de forma voluntária e não remunerado, uma comissão temporária, destinada a elaborar e disseminar idéias que possam contribuir para o futuro da ciência brasileira, tenha servido como forma de cercear minhas opiniões. Na realidade, o objetivo dessa comissão é levantar todas críticas ao modelo vigente e propor soluções eficazes para que a ciência brasileira possa contribuir decisivamente para o desenvolvimento social e econômico do país. Sinceramente, Miguel Nicolelis”

A resposta acima pesquei no site Vi o mundo de Luiz Carlos Azenha num texto de Conceição Lemes, que recomendo, uma vez que o jornalão não publicou a resposta.

O meu único reparo é sobre uma das frases finais nas quais a jornalista afirma “A Folha mais uma vez briga com a verdade factual, aprontando outra  das suas.”  Eu tenho um amigo que diria “ao invés de suspeitar da má-fé, suspeite da incompetência”. Não posso citar o amigo (que não pode falar o que pensa numa grande instituição de pesquisa) mas tenho quase certeza de que o que falta é competência  para o jornal entender a realidade, ainda que de forma tosca.

Amilton Sinatora


Dá-lhe Nicolelis!

04/03/2011

O pesquisador Miguel Nicolelis emitiu críticas e considerações ao sistema brasileiro de C&T.

No divertido artigo de Alexandre Gonçalves publicado no Estado de São Paulo em 11 de Janeiro de 2011, “Einstein não seria pesquisador 1A do CNPq”, o pesquisador Miguel Nicolelis emite refrescantes críticas e considerações ao nosso sistema de C & T.

Destaco algumas:

1) A política científica e tecnológica (a nossa)
1.a)“Está ultrapassada. Principalmente a gestão científica”. “O mais importante nós temos: o talento humano. Mas ele é rapidamente sufocado por normas absurdas dentro das universidades.”
1.b)”Aqui no Brasil há a cultura de que, subindo na carreira científica, o último passo de glória é virar um administrador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) ou da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). É uma tragédia. Esses caras não tem formação para administrar nada. Nem a casa deles.”

2) Burocracia.“Achar que um cientista vai desviar dinheiro para fazer fortuna pessoal é absurdo. O processo de financiamento deve ser mais aberto, com mecanismos simples de auditoria. Além disso, deveria ser mais fácil importar insumos e, com o tempo, precisaríamos atrair empresas para produzi-los aqui.”

3) Ciência e Democracia no Brasil
3.a)“É uma atividade extremamente elitizada. Não temos a penetração popular adequada nas universidades. Quantos doutores são índios ou negros? A ciência deve ir ao encontro da sociedade brasileira.”
3.b)“Hoje, nós precisamos de cientista que joga futebol na praia de Boa Viagem. Precisamos do moleque que está na escola pública. As crianças precisam ter acesso à educação científica, à iniciação científica.”

4) Avaliação de mérito na academia
4.a)“ Na academia brasileira, as recompensas dependem do que eu chamo de “índice gravitacional de publicação”: quanto mais pesado o currículo, melhor. Ou seja, o cientista precisa colecionar o maior número de publicações – sem importar tanto seu conteúdo. Não pode ser assim. O mérito tem de ser julgado pelo impacto nacional ou internacional de uma pesquisa.”
4.b) “ Meu departamento na Universidade Duke nunca pediu meu índice de citação. Também nunca calculei. Quando sai do Brasil, achei que estava deixando um mundo de lordes da ciência. Fui perguntando nome por nome lá fora. Ninguém conhecia. Ninguém sabia quem era. Criamos uma bolha provinciana que deve ser estourada agora se o Brasil quer dar um salto quântico. ”

5) Como você se vê na academia
5.a) “Sou um pária. Não tenho o menor receio de falar isso. Sou tolerado. Ninguém chega para mim de frente e fala qualquer coisa. Mas, nos bastidores, é inacreditável a sabotagem de que fomos vítimas aqui em Natal nos últimos oito anos. Mas sobrevivemos.”
5.b)”Algumas pessoas ficaram ofendidas porque não fiz o beija-mão pedindo permissão para fazer ciência na periferia de Natal. Este ano, na avaliação dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), tivemos um dos melhores pareceres técnicos da área de biomedicina. E o nosso orçamento foi misteriosamente cortado em 75%. Pedi R$ 7 milhões. Recebemos R$ 1,5 milhão.”
5.c) “As pessoas têm medo de abrir a boca, porque você é engolido pelos pares. ”
5.d) “ De qualquer forma, o pessoal precisa entender que voltar para o Brasil é assumir um tipo especial de compromisso. Não é ir para Harvard, Yale. Você deve estar disposto a dar seu quinhão para o País porque ele ainda está em construção. Nem tudo vai funcionar como a gente quer. Vejo muita gente egoísta voltando para o Brasil. Os jovens precisam olhar menos para o umbigo e mais para a sociedade.”

6) Sobre os pesquisadores jovens.“ Atualmente, eles têm uma dificuldade tremenda de conseguir dinheiro porque não são pesquisadores 1A do CNPq. Você precisa ser um cardeal da academia para conseguir dinheiro e sobressair. Com um físico da UFPE, cheguei à conclusão de que Albert Einstein não seria pesquisador 1A do CNPq, porque ele não preenche todos os pré-requisitos – número de orientandos de mestrado, de doutorado.”

7) Sobre o obscurantismo na nossa ciência
7.a)“Para entender a que me refiro, basta participar de reuniões científicas e acompanhar a composição de uma mesa. Não há nada semelhante em lugar nenhum do mundo: perder três minutos anunciando autoridades e nomeando quem está na mesa. É coisa de cartório português da Idade Média. Cientista é um cidadão comum. Ele não tem de fazer toda essa firula para apresentar o que está fazendo. É um desperdício de energia, uma pompa completamente desnecessária.”
7.b)”Muitas vezes, os pesquisadores jovens não podem abrir a boca diante dos cientistas mais velhos. Eu ouço isso em todo o Brasil.” “Qualquer um pode me interpelar a qualquer momento. Qualquer um pode reclamar de qualquer coisa. Qualquer um pode fazer qualquer pergunta. E ninguém me chama de professor Nicolelis. Meu nome lá é Miguel. Por quê? Porque o cientista é algo comum na sociedade.”

Tem mais, mas eu vou parar por aqui pois preciso me manter no emprego e com financiamento estatal por mais 5 anos.

Amilton Sinatora


Hipótese sobre a fonte da burocracia anticiência

28/01/2011

..."sobrecarga gerada sobre o pesquisador por questões administrativas".

Richard Dawkins, na sua polêmica contra os deuses, nos explica que afirmações que não podem ser provadas não são tratáveis no âmbito da ciência. Ele usa o exemplo de um bule de chá girando em torno do sol, tomado de Bertrand Russell, a quem passo a palavra.

“ If I were to suggest that between the Earth and Mars there is a china teapot revolving about the sun in an elliptical orbit, nobody would be able to disprove my assertion provided I were careful to add that the teapot is too small to be revealed even by our most powerful telescopes. But if I were to go on to say that, since my assertion cannot be disproved, it is an intolerable presumption on the part of human reason to doubt it, I should rightly be thought to be talking nonsense. If, however, the existence of such a teapot were affirmed in ancient books, taught as the sacred truth every Sunday, and instilled into the minds of children at school, hesitation to believe in its existence would become a mark of eccentricity and entitle the doubter to the attentions of the psychiatrist in an enlightened age or of the Inquisitor in an earlier time.”

Eu chamo este bule de chá de deus de Dawkins. De minha parte, postulo que existe na mesma órbita do bule de chá de Dawkins, a 180 graus do mesmo, um inferno invisível aos nossos telescópios no qual demônios incansáveis elaboram infindáveis e intrincados formulários. O  preenchimento dos mesmos objetiva afastar pesquisadores dos laboratórios, condicionando-nos com o passar do tempo a concluir  que o melhor no auge da maturidade científica é ser chefe de alguma coisa. Lá também se elaboram regimentos, regras e procedimentos que, sob pena de execração pública, devem ser minuciosamente estudados, seguidos e aplicados como forma de garantir que não produzamos nada de útil ou expressivo e que os dias de trabalho cheguem ao fim com uma sensação cinzenta.

Execrado pelos que crêem e ignorado pelos que não crêem, uma vez que a afirmação não pode ser “desprovada”, este texto parece, portanto, a fundação de uma nova religião (provavelmente pouco lucrativa) ou um desabafo solitário. Mas nem tanto!

No jornal O Estado de São Paulo de 23 de janeiro de 2011, o jornalista Alexandre Gonçalves divulga a saga do pesquisador brasileiro Stevens Rehen, que viu seu material de pesquisa apodrecer na alfândega. Anvisa e a Receita, numa atitude progressista, se reuniram com o cientista e concluiram que o incorreto preenchimento dos formulários era a principal causa da morosidade e dos atrasos. Sobre a provável origem dos formulários, Glaucius Oliva, presidente do CNPq, considera que “um dos grandes entraves à ciência no país é a sobrecarga gerada sobre o pesquisador por questões administrativas”, sem contudo exorcizar a hipótese demono-astronômica levantada nesse texto.

Amilton Sinatora

Referências

http://en.wikipedia.org/wiki/Russell’s_teapot

O Estado de São Paulo, 23 de janeiro de 2011, pp 20 e 22. Alexandre Gonçalves “Prioridade é criar um novo marco legal”;  “Burocarcia ainda é um dos principais entraves à pesquisa científica no País” .

 


Mercadante ministro da ciência e tecnologia

26/01/2011

Segundo o Ministro,o Livro Azul terá papel central na sua administração.

O Ministério da Ciência e Tecnologia é o mais estratégico dos ministérios. Enquanto ministério da tecnologia, ele tem que gerir, estimular, fomentar, organizar a aplicação da ciência transformando conhecimento em produto interno bruto. Enquanto ministério da ciência, ele tem a função de lançar no presente as bases para que, no futuro, se possa transformar conhecimento em PIB.

A tarefa do “ministério da tecnologia” é  para já! Deve servir à estratégia vigente (qualquer que ela seja) e por isso é acompanhada do risco do imediatismo, das cobranças dos grupos de pressão e, por fim, sujeita à tentação da dispersão democratista dos recursos.

A tarefa do “ministério da ciência” é de apostar hoje em vetores de pesquisa para que no futuro alguns desses vetores representem conhecimento transformável em PIB, ou seja, para que no futuro tenhamos ciência para aplicar. Por isso, esta tarefa é sujeita às criticas daqueles que precisam antever um resultado para investir, é sujeita às cobranças dos que não entendem os ritmos e caminhos da construção da ciência, e é sujeita à tentação de seguir os modismos copiados do primeiro mundo quanto à construção do futuro.

O discurso de posse do Ministro Mercadante, como todo discurso de posse, apresenta as intenções ainda desinformadas da vivência no cargo e serve como uma importante declaração de intenções, que será evidentemente temperada pelo relacionamento com as pedras do caminho e com o conhecimento adquirido no percurso.

Um bom gestor deve saber fazer a escolha da sua prioridade. Minha leitura do discurso mostra que teremos um ministro predominantemente da tecnologia, que elegeu a aplicação do conhecimento existente como foco de sua gestão. Um parágrafo elucida este ponto. “De qualquer forma, o descolamento entre ciência e produção tem de ser superado. Pasteur afirmou que não há ciências aplicadas e sim aplicações da Ciência. Todo conhecimento científico pode e deve contribuir para aumentar a nossa competitividade e melhorar a qualidade de vida de todos os brasileiros”. *

Nessa toada e em parte anterior de seu discurso, o Ministro define sua visão econômica citando os seguidores de Schumpeter,  advogando a concepção “…que concebe a inovação como uma visão sistêmica, que articula organicamente todos os agentes envolvidos no processo”. O Ministro prossegue: “Coerentemente com tal modelo, precisamos articular de forma mais consistente, o saber gerado nas universidades e nos institutos de pesquisa com as necessidades tecnológicas do processo de produção industrial”. *

Para todos os que atuam em engenharia e em especial para nós do Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies, estas afirmativas são muito animadoras uma vez que pretendem reforçar e aprofundar ações com as quais estamos alinhados desde há pelo menos 25 anos.
Um exemplo é o projeto Desafios Tribológicos em Motores Flex Fuel, que surgiu a partir de uma solicitação de parceiros da indústria automotiva (GM, VW, FPT, PSA, PEUGEOT) bem como de fornecedores da cadeia produtiva (MAHLE, PETROBRAS, FUNDIÇÃO BALANCINS). Este projeto, que congrega docentes da USP, UNICAMP e UFABC, tem caráter pré-competitivo e um forte componente de formação de pessoal e de criação de conhecimento sobre a tribologia dos motores de combustão interna, de forma a apoiar o desenvolvimento sustentado de tecnologias para motores que utilizem biocombustíveis, tanto em suas empresas como nos centros de pesquisa acadêmicos.

Quanto ao papel e a visão do Ministro da Ciência, teremos que aguardar novos pronunciamentos ou mergulhar mais profundamente nos termos do discurso de posse e de suas referências, como o “Livro Azul” que, segundo o Ministro, “ terá, sem dúvida papel central na orientação de minha administração”. *

*Discurso de posse Ministério da Ciência e Tecnologia: http://www.mercadante.com.br/noticias/ultimas/pronunciamento-posse-no-ministerio-da-ciencia-e-tecnologia

Amilton Sinatora


Tribo Flex – um ano de tramitação na Fapesp

07/01/2011

Tribo Flex: reuniões mensais enquanto o projeto tramita.

No dia 23 de dezembro de 2010 completou um ano a tramitação do projeto de Tribologia de Motores Flex Fuel na FAPESP.

Nem sim nem não, mas a resposta da FAPESP já não é o que mais importa neste caso. Quando um projeto de inovação que congrega empresas do porte da GM, PSA, RENAULT, VW, MAHLE, PETROBRAS, FPT e três universidades paulistas tramita por um ano (pelo menos), fica evidente que há algo errado no sistema de P&D do Estado de São Paulo.

Uma negação expedita, digamos até abril do ano que finda, nos deixaria à vontade para recorrermos ao governo federal em busca de apoio. As sucessivas protelações nos trouxeram ao fim do mandato presidencial com conseqüente troca de postos nos órgãos federais, o que nos tolheu possibilidades de buscar ajuda no segundo semestre de 2010. Certamente, no início de 2011, quando as posições de mando nos órgãos federais estiverem estabelecidas, voltaremos a negociar neste âmbito.

Apesar da morosidade na tramitação, temos mantido reuniões mensais e conseguido fundos para o projeto. A PETROBRAS financiou um tribômetro multiuso adequado à avaliação de lubrificantes e de produtos de combustão que permitirá avanços experimentais ainda no primeiro semestre de 2011. Ao mesmo tempo, alguns dos temas do projeto vão avançando lentamente com verba de outros financiamentos ou com bolsas da mesma FAPESP. Transmitimos seguidamente às empresas que não se trata de descaso nem de desinteresse do governo paulista em apoiar o estudo da tribologia de motores FLEX, uma vez que há muitos usineiros no governo e todos interessados em expandir o uso do álcool combustível.

Ao mesmo tempo que sabemos dizer o que talvez não seja a causa, não sabemos dizer qual é a mesma. Pelo sim, pelo não ou ao menos para mudar de ares, a próxima reunião será dia 27 de janeiro em Curitiba, terra de RENAULT, na Universidade Técnica Federal do Paraná. Com isso avançaremos no caráter nacional de projeto, o que talvez nos permita recorrer com mais propriedade ao financiamento federal.

Amilton Sinatora