Imagem do mês de dezembro: minientrevista com o autor.

01/12/2014

imagem dezembroA partir da imagem de dezembro do calendário do Instituto de Engenharia de Superfícies, podemos imaginar diversos cenários. Por exemplo, uma cerca abandonada à ação do tempo. Contudo, objetivamente, o que a imagem de microscopia eletrônica de varredura (MEV) mostra é uma tela de aço inox recoberta por nanotubos de carbono. Detalhe: os nanotubos foram obtidos a partir dos gases gerados pela queima controlada do bagaço da cana-de-açúcar.

O autor da imagem, Joner Alves, 32 anos, é bacharel em Física e mestre em Engenharia de Materiais pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), e doutor em Engenharia Metalúrgica e de Materiais pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é diretor do Instituto SENAI de Inovação em Tecnologias Minerais.

Segue uma breve entrevista com o autor.

1. Explique-nos de que maneira foram obtidos os nanotubos da imagem premiada.

O bagaço da cana foi incinerado em um forno com atmosfera controlada. O efluente da queima foi submetido a um filtro de carboneto de silício e em seguida direcionado a um segundo forno, no qual entrou em contato com um sistema catalisador composto por telas de aço inoxidável. O processo resultou em um material sólido, no qual foram obtidos os nanomateriais, materiais com ampla gama de aplicações devido as suas excelentes propriedades.

2. Conte-nos um pouquinho a respeito o contexto em que foi realizada a imagem.

A pesquisa é referente a minha tese de doutorado, defendida em 2011 no Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais da USP, sendo parte dela realizada na Northeastern University (Boston, EUA), onde foi feita a imagem premiada.

3. Comente o impacto social do trabalho.

O destino dos resíduos sólidos é uma problemática mundial, sendo que uma alternativa para a deposição dos resíduos poliméricos é a queima controlada visando a produção de energia. A minha pesquisa teve como objetivo estudar os gases gerados durante a queima destes materiais, visando o reaproveitamento na síntese de nanomateriais.

Materiais com alto valor agregado foram produzidos a partir de resíduos, com destaque para os nanotubos de carbono. Além disto, o sistema catalisador empregado reduziu as emissões gasosas provenientes da queima dos resíduos. Deste modo, a metodologia elaborada representa um incentivo para a cadeia de produção de energia através de resíduos através da criação de valor agregado com a produção dos nanotubos. Outro importante fator é a possibilidade de redução do custo da produção dos nanomateriais, uma vez que os resíduos empregados são matérias-primas de baixo custo.

4. Gostaria de agradecer alguém que tenha ajudado na realização da imagem vencedora?

O trabalho foi orientado pelo Prof. Jorge Alberto Soares Tenório da Escola Politécnica da USP e co-orientado pelo Prof. Yiannis Levendis da Northeastern University. O projeto contou com o apoio do CNPq e da CAPES.

5. O trabalho foi objeto de outros prêmios, não é mesmo?

A pesquisa também deu origem às premiações:

2013 – Prêmio AEA de Meio Ambiente – 1º Lugar na Categoria Acadêmica – Trabalho: “Geração de energia e produção de nanotubos de carbono a partir do resíduo da produção de etanol”, Associação Brasileira de Engenharia Automotiva – AEA.

2012 – Prêmio AEA de Meio Ambiente – Menção Honrosa: Categoria Acadêmica – Trabalho: “Synthesis of nanomaterials from unserviceable tires”, Associação Brasileira de Engenharia Automotiva – AEA.

2012 – Prêmio Antonio Mourão Guimarães – Melhor trabalho sobre fabricação e uso de materiais refratários, Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM) / Magnesita S.A..

2012 – Prêmio Capes de Tese: Menção Honrosa na Categoria Engenharias II, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes.

2012 – Prêmio Vale-Capes de Ciência e Sustentabilidade: Melhor tese de doutorado na área, CAPES e VALE S.A..

2010 – Prêmio MERCOSUL de Ciência e Tecnologia – 1º lugar: Categoria Jovem Pesquisador, UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.

Para contatar o Joner:  joner.isi@senaipa.org.br.

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Imagem do mês de novembro: minientrevista com o autor.

18/11/2014

???????????????Na imagem que ilustra a página de novembro do calendário do Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies, o microscópio óptico evidenciou a microestrutura da liga de titânio Ti-6Al-4V após receber um tratamento superficial com laser pulsado Nd-YAG em atmosfera de nitrogênio (nitretação por laser). Essa liga tem papel de destaque na indústria aeroespacial na confecção de componentes para uso em altas temperaturas. Entretanto, quando usado em temperaturas superiores aos 500 ºC, o material é mais propenso a sofrer um tipo de deformação conhecido como fluência (creep).

O autor da imagem, Adriano Gonçalves dos Reis, 37 anos, é graduado em Engenharia Química pela Escola de Engenharia de Lorena da Universidade de São Paulo (EEL-USP) e mestre em Ciências pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), no Programa de Engenharia Aeronáutica e Mecânica na área de Materiais e Processos de Fabricação. Possui mais de 15 anos de experiência na indústria atuando como engenheiro de processos e fabricação. Atualmente é aluno de doutorado e integrante do Grupo de Fluência do ITA.

Segue uma breve entrevista com o Adriano.

1. Comente os elementos visuais que compõem a imagem.

Esta imagem evidencia a microestrutura da zona fundida por laser, que consiste de uma fina e contínua camada de TiN seguida por um crescimento perpendicular de dendritas. As largas dendritas próximas da superfície correspondem ao TiN, e abaixo dessa estrutura, devido à diminuição da disponibilidade de nitrogênio, as dendritas correspondem ao TiN0,3. A fase da matriz entre as dendritas corresponde à martensita α’-Ti.

2. Conte-nos um pouquinho a respeito o contexto em que foi realizada a imagem.

O Grupo de Fluência do ITA, nucleado no ano de 2005 sob a coordenação do saudoso professor Carlos de Moura Neto, que foi o meu orientador de mestrado, trabalha no desenvolvimento de tratamentos térmicos e termoquímicos visando o aumento da resistência mecânica em temperaturas elevadas de materiais para aplicação aeroespacial. Uma das linhas de pesquisa do grupo é o estudo da liga Ti-6Al-4V, usada em turbinas aeronáuticas. O meu trabalho de mestrado consistiu na avaliação do comportamento em fluência da liga Ti-6Al-4V submetida a tratamento superficial de nitretação por laser. A imagem premiada foi obtida por microscopia óptica para avaliação da microestrutura formada na superfície. O tratamento a laser foi realizado na Universidade Politécnica de Madri (UPM) e os ensaios mecânicos foram realizados no ITA.

3. Comente brevemente os resultados do trabalho e suas perspectivas.

As amostras nitretadas superficialmente por laser apresentam maior resistência à fluência do que as amostras sem tratamento. Verificam-se, no material tratado, uma menor velocidade de fluência e um aumento do tempo de vida do material. Estes resultados abrem um novo campo de pesquisa para o Grupo de Fluência do ITA, que já tem um projeto de doutorado em andamento para determinação das condições ideais de nitretação por laser para obtenção de taxas de fluência ainda menores na liga Ti-6Al-4V.

4. Explique-nos em poucas palavras do que trata a nitretação por laser e por que essa técnica foi escolhida em seu trabalho.

O processo de nitretação por laser se enquadra dentro da técnica de laser surface alloying (LSA), que envolve o uso de uma intensa energia óptica do laser para fundir a superfície numa atmosfera contendo nitrogênio. Uma extensiva e rápida dissolução do nitrogênio ocorre na região fundida e são produzidas dendritas da fase de nitreto de titânio. Essa técnica a laser tem se destacado nas últimas décadas, devido a sua simplicidade e possibilidade de produzir camadas de proteção com o mínimo efeito no substrato, aumentando assim a resistência à fluência.

5. Gostaria de agradecer alguém que tenha ajudado na realização da imagem vencedora?

Este prêmio é dedicado à memória do professor Carlos de Moura Neto, pela dedicação ao longo de sua vida em prol do progresso da ciência no Brasil. Agradeço a todos os membros do Grupo de Fluência do ITA pela colaboração no desenvolvimento do trabalho.

Para contatar o Adriano: areis@ita.br

Mais detalhes sobre a pesquisa: dos Reis, Adriano Goncalves; Pereira Reis, Danieli Aparecida;  de Moura Neto, Carlos; Ribeiro Barboza, Miguel Justino;  Onoro, Javier. Creep behavior and surface characterization of a laser surface nitrided Ti-6Al-4V alloy. Materials Science & Engineering A, 577 (2013) 48-53. DOI: 10.1016/j.msea.2013.04.042.


Como foi nosso simpósio de Engenharia de Superfícies em João Pessoa.

29/10/2014

Com 231 resumos recebidos, o Simpósio N sobre Engenharia de Superfícies foi o maior do XIII Encontro da SBPMat. Entretanto, como destaquei na abertura do Simpósio, não só a quantidade deve ser avaliada; a qualidade é ainda mais importante. Foi por isso que convidamos palestrantes de peso internacional para dar começo às sessões da segunda e terça-feira. Seguem fotos dos invited em ação: Tiberiu Minea (Paris-Sud), Christopher Muratore (Dayton), Christoph Genzel (HZB) e Amilton Sinatora (USP).

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Além disso, houve muita presença internacional nos trabalhos apresentados, dando ares a nosso evento de Simpósio Internacional em Engenharia de Superfícies.

Ainda, os trabalhos apresentados podem ser submetidos por meio do sistema Elsevier a um volume especial da revista Surface & Coatings Technology.

É importante destacar o apoio do INCT Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies para custear a vinda dos palestrantes convidados.

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Os palestrantes convidados, o coordenador do simpósio (C. Figueroa) e membros do comitê científico (F. Alvarez e F. Lázaro Freire Jr).

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Sessão de pôsteres: avaliação para escolher o vencedor do Prêmio Gross do simpósio.

Entre outros pontos de destaque, menciono a homogênea distribuição de autores de trabalhos entre as regiões Nordeste, Sul e Sudeste do Brasil. Também chamou a minha atenção a elevada qualidade de alguns trabalhos de iniciação científica (IC), que era superior à de outros trabalhos de doutorado. Não foi casualidade que o prêmio de melhor pôster do Simpósio N foi para um estudante de IC (Rodolfo Bonoto Estevam, da Universidade Estadual de Ponta Grossa, pelo trabalho “Preparation and Characterization Of The Lbl Films Based Nanoparticle Graphene Oxide Interacting With 3-N-Propylpirydinium Silsesquixane Chloride“).

Aguardem nossas novidades para o próximo evento …

Para saber mais sobre o simpósio: http://engenhariadesuperficies.com.br/noticias.asp?idNoticia=442


Imagem do mês de outubro: minientrevista com o autor.

20/10/2014

imagem outubroEstrela para uns, flor ou carambola para outros, o objeto da imagem que ilustra a página de outubro do calendário do Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies é, na verdade, um cluster de partículas de fosfato de cálcio de algumas dezenas de micrometros. A imagem foi obtida por microscopia eletrônica de varredura (MEV) na Central de Microscopia Eletrônica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O belo conjunto de partículas foi sintetizado pelo método de condensação iônica, no contexto de uma pesquisa que desenvolveu um curativo feito com uma membrana de látex com partículas de fosfato de cálcio incorporadas. O curativo ajudaria à regeneração de tecido ósseo ao liberar paulatinamente o fosfato de cálcio.

O autor da imagem, Rodney Marcelo do Nascimento, 35 anos, é graduado em Licenciatura Plena em Física pela UNESP e mestre e doutor em Ciência e Tecnologia de Materiais, também pela UNESP. Desenvolveu trabalhos de pós-doutorado sobre superfícies funcionalizadas na UFSC (2012), UNESP – Rio Claro (2013) e USP – São Carlos (2014). Atualmente é pesquisador científico do Institut Lumière Matière, na França.

Segue uma breve entrevista com Rodney.

1. Conte-nos sobre o contexto em que foi realizada a imagem.

A imagem está dentre algumas obtidas por MEV para avaliar a morfologia das partículas processadas por diferentes tratamentos físico-químicos. Uma parte da metodologia utilizada foi aproveitada dos trabalhos de doutorado; na época recentemente defendido (2011). O avanço e os desdobramentos da pesquisa resultaram em um projeto de pós- doutorado, realizado na UFSC  em colaboração com a UNESP e a USP. O projeto, no qual fui contemplado com uma bolsa de pesquisa PNPD, foi inteiramente financiado pela CAPES e CNPq.

2. Você esperava ver partículas com o formato que aparece na imagem vencedora ou foi uma surpresa?

Foi possível obter diferentes formatos e tamanhos de partículas, isoladas e em clusters, que variavam a partir da modificação de concentração de reagentes químicos, assim como dos tratamentos térmicos, mas o formato de estrela foi uma surpresa.

3. O belo cluster de partículas da imagem vencedora teve um bom desempenho no contexto da pesquisa?

Embora o formato estelar tenha chamado a atenção, outras partículas menos “charmosas” foram mais eficazes no processo de incorporação na rede polimérica. Os últimos resultados foram publicados recentemente na revista Materials Science and Engineering: C , Volume 39, 1 June 2014, Pages 29-34. O artigo descreve com mais exatidão os caminhos que levaram ao encapsulamento das partículas de fosfato de cálcio  pelas proteínas do látex. As próximas etapas da pesquisa consistem em testar o material em fluido corporal e estudar as interações físico-químicas a partir da molhabilidade da superfície. Como última etapa, iniciar os estudos com células (in vitro/vivo).

4. Conte- nos um pouco mais sobre a ideia do curativo.

A ideia do curativo consiste em se obter um material final com três funcionalidades: 1) isolar o ferimento (mecânico); 2) estimular a regeneração de tecidos (biocompatível); 3) carrear partículas de fosfato de cálcio. Dentro dessa proposta, a aplicabilidade deve ser na regeneração de tecido ósseo.

5. Gostaria de agradecer alguém que tenha ajudado na realização da imagem vencedora?

Agradeço aos órgãos de pesquisa que financiaram o projeto, a todos do suporte técnico, aos coautores Ivan Bechtold, Francisco Guimarães,  Aldo Job, Deuber Agostini e um agradecimento especial ao Fabricio Faita.

Para contatar o Rodney: rodney@fc.unesp.br


Fotografias e imagens de microscopia em 3D para documentação técnica e científica.

16/09/2014

Sabia que imagens em três dimensões (3D) podem constituir um recurso importante para o trabalho do engenheiro e do pesquisador?

Na elaboração de relatórios e documentos técnicos e científicos, normalmente recorre-se a ilustrações com fotografias. Entretanto, registrar fotograficamente superfícies que apresentam textura ou irregularidade superficial, como, por exemplo, aquelas que sofreram desgaste ou corrosão, não é trivial. Requer conhecimento de técnicas fotográficas, particularmente no que diz respeito à iluminação, sensibilidade, profundidade de foco e contraste. Mais do que isso, a fotografia pode criar ilusão de óptica, transformando relevo em cavidade e vice-versa. A fotografia 3D elimina esta ilusão e inequivocamente consegue registrar a superfície.

Essas questões foram o ponto de partida para um workshop a cargo do professor Deniol Tanaka, que reuniu cerca de 40 professores e estudantes de Engenharias, Fotografia, Ciência de Materiais e outros cursos, na Universidade de Caxias do Sul (UCS), no final da tarde de 26 de agosto passado.

Vejam estas fotografias da turma. Notem que as duas de baixo são 3D; para enxergá-las corretamente é necessário usar óculos com lentes red/blue (destinados à visualização de imagens no sistema anaglífico).

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Deniol Tanaka, professor titular da Escola Politécnica da USP, é formado em Engenharia Mecânica pela UNESP. Possui mestrado em Ciências pelo ITA, e doutorado em Engenharia Metalúrgica e livre docência pela USP. Fã declarado da fotografia 3D, além de usar a técnica profissionalmente e incluí-la nas suas aulas de Análise de Falha, Tanaka costuma usar sua câmera 3D em eventos de cunho pessoal como os aniversários de seus netos.

No workshop, que formou parte da programação do  1º Seminário de Tecnologia, Inovação e Desenvolvimento Social organizado pelo Centro de Ciências Exatas e da Tecnologia (CCET) da UCS, ele passou aos participantes um amplo panorama de técnicas de imagem, indo desde noções básicas de fotografia (iluminação, profundidade de foco, tempo de exposição) até a criação de fotografias e imagens de microscopia em 3D. Vejam o arquivo da apresentação, gentilmente cedido pelo professor Tanaka:

Após o workshop, os estudantes de pós-graduação presentes seguiram para um módulo prático sobre micrografia 3D no microscópio eletrônico de varredura (MEV) do Laboratório de Caracterização de Materiais da UCS.

A presença do professor Tanaka em Caxias do Sul foi patrocinada pelo Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies.


Leonardo da Vinci: artista fracassado, engenheiro fracassado, mas um ótimo cientista!

11/09/2014

Na noite de 25 de agosto passado, no teatro da Universidade de Caxias do Sul, cerca de 800 pessoas ocuparam todas as poltronas e sentaram nos tapetes dos corredores para assistir a uma palestra a respeito da visão do professor Deniol Tanaka sobre a vida, obra e pensamento de Leonardo da Vinci (1452 – 1519).

Foto: Claudia Velho.

Foto: Claudia Velho.

Professor Titular da Escola Politécnica da USP, formado em Engenharia Mecânica pela UNESP, mestre em Ciências pelo ITA, doutor em Engenharia Metalúrgica e Livre Docente pela USP, Tanaka vem estudando o Leonardo da Vinci há cerca de 40 anos, desde que leu “The Private Life of Mona Lisa”, na década de 1970, que acabara de ser lançado, indicado por um amigo.

Com muitíssimo entusiasmo, o professor Tanaka discorreu durante quase duas horas sobre a vida de Leonardo, mostrando na apresentação muitos documentos históricos, pinturas de da Vinci, projetos das máquinas que ele inventava e, até mesmo, uma música composta por Leonardo.

Distinguindo as especulações e mitos das interpretações baseadas em evidências, o professor Tanaka também comentou várias ideias surgidas em torno da obra de Leonardo, como a tese de que, no quadro “A última ceia”, há uma partitura oculta que, ao ser interpretada da direita para a esquerda, sentido no qual o Leonardo escrevia, gera uma música.

No decorrer da palestra, o professor Tanaka respondeu à pergunta que usou como título da sua palestra. Leonardo: artista, engenheiro ou cientista?

O palestrante mostrou que da Vinci atuou em quase todos os campos do conhecimento e das artes, guiado por uma sede intrínseca de compreender e explicar tudo.  Leonardo projetou muitas máquinas e engenhos (canhões, automóveis, navios, máquinas voadoras, sistemas hidráulicos, ferramentas…), mas não conseguiu fazer funcionar nenhuma delas. Não chegou a entregar ou vender nenhum dos seus quadros, pois estavam inacabados. Assim, na visão de Tanaka, Leonardo foi um engenheiro e um artista fracassado.

Porém, perante cada fracasso, Leonardo procurava compreender as causas. E cada resposta trazia novas perguntas, as quais o levavam a tentar compreender novos fenômenos. Dessa maneira da Vinci nunca conseguia por o ponto final em seus projetos, mas, em compensação, trabalhando completamente só, avançou séculos no conhecimento sobre os mais diversos assuntos (mecânica, anatomia, voo dos pássaros, astronomia, materiais, óptica, hidráulica…) e foi precursor de várias criações do século XXI. Por citar apenas um exemplo, Leonardo antecedeu em dois séculos Amontons e Coulomb, considerados os pais do atrito, ao conceituar detalhadamente esse fenômeno. Outro exemplo: Leonardo tinha projetado todos os mecanismos contidos numa inovadora escova de dentes elétrica lançada pela Oral B em 2002.

Como o gênio não publicava suas descobertas, todo o conhecimento que o Leonardo gerou ficou perdido por muitos séculos e não pôde ser aproveitado para gerar mais conhecimento ou para aplicá-lo ou para ser aperfeiçoado por outros… Não publicar foi um erro do da Vinci, disse o palestrante, assim como não trabalhar em equipe.

Vejam aqui o arquivo da apresentação, gentilmente cedido pelo professor Tanaka:

A palestra, que o professor Tanaka já tinha apresentado nas cidades de Curitiba (PR), Garça (SP), Natal (RN), Ponta Grossa (PR), São Bernardo do Campo (SP), Taubaté (SP), Guarujá (SP) e São Paulo (SP), fez parte nesta oportunidade do 1º Seminário de Tecnologia, Inovação e Desenvolvimento Social organizado pelo Centro de Ciências Exatas e da Tecnologia (CCET) da UCS, além de ser a palestra comemorativa dos 10 anos do Programa de Pós-Graduação em Materiais da UCS. A presença do professor Tanaka em Caxias do Sul foi patrocinada pelo Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies.


Imagem do mês de agosto: minientrevista com o autor.

26/08/2014

imagem do mesEspinhas de peixe soterradas na areia? Soltando um pouco a imaginação, a imagem do mês agosto do calendário do Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies nos transporta a uma praia. Sol, cheiro de mar, barulho das ondas.

Entretanto, o que vemos nesta imagem tem escala nanométrica. As espinhas são, na realidade, nanofios de paládio, e a areia, uma coleção de nanopartículas metálicas com diâmetro médio de 30 nm. A imagem foi obtida mediante um microscópio eletrônico de varredura (MEV) do Laboratório Nacional de Nanotecnologia, localizado em Campinas (SP).

O autor da imagem é Douglas Soares da Silva, 30 anos, também autor de outras duas imagens de nosso calendário. Douglas é estudante de doutorado ligado ao Laboratório de Pesquisas Fotovoltaicas do Instituto de Física “Gleb Wataghin” da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), laboratório participante do nosso Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies. Em seu doutorado, orientado pelo professor Francisco das Chagas Marques, Douglas está estudando filmes finos nanoestruturados com ênfase em aplicações fotovoltaicas. Além do doutorado, Douglas trabalha como profissional de apoio à pesquisa no Instituto de Química da Unicamp, auxiliando na caracterização de materiais poliméricos, principalmente por microscopia eletrônica de varredura e transmissão. Douglas tem graduação e mestrado em Física pela Unicamp.

A seguir, o autor nos conta como e por que produziu o sistema de nanopartículas e nanofios “retratado” na imagem de MEV

1. Mate a nossa curiosidade sobre os elementos visuais que compõem a imagem.

A imagem revela um pequeno grupo de nanofios de paládio (Pd) que se destacam sobre uma coleção de nanopartículas metálicas com diâmetro médio de 30 nm. Os fios aparentam estar soterrados, pois eles foram previamente crescidos com auxílio de um tratamento térmico realizado sobre um filme fino de Pd e depois parcialmente recobertos através de um processo a plasma (sputtering) rico em hidrogênio a 330 ºC que incorporou as nanopartículas de cobre (Cu) à amostra. Vale ressaltar que esta etapa final provavelmente também estimulou uma continuidade do crescimento dos fios fazendo com que aparentassem estar emergindo. Este sistema (nanopartículas e nanofios) está revestindo a superfície polida de uma lâmina de silício cristalino.

2. Agora conte-nos um pouco sobre o contexto em que foi realizada esta imagem.

Se tratava de uma amostra dentre experimentos para crescimento e controle de nanoestruturas envolvendo processos PVD (sigla em inglês para physical vapor deposition). O intuito geral era avaliar a qualidade de nanoestruturas seguindo deposições de metais e tratamentos térmicos com plasma de hidrogênio. Não devo utilizar precisamente esta imagem no doutorado, porém a informação que dela extraímos foi útil para caracterização do sistema experimental quanto à formação de nanopartículas metálicas.

3. Gostaria de agradecer alguém que tenha ajudado na realização da imagem vencedora?

Eu gostaria de agradecer o auxílio que tive de Sidnei R. de Araújo do Laboratório Nacional de Nanotecnologia – LNNano/CNPEM na operação do microscópio eletrônico de varredura.

4. Fique à vontade para outros comentários, curiosidades etc. relacionados à imagem.

A identificação composicional dos elementos da imagem foi feita usando a técnica de EDS (sigla do inglês para Energy Dispersive Spectroscopy) no microscópio eletrônico usando espectros e mapas elementares.

Para entrar em contato com Douglas: dsoares@ifi.unicamp.br