Internacionalização da pesquisa, via de mão dupla

29/09/2010

"Há, de um lado, abundância de doutores e, ao mesmo tempo, escassez de mão de obra especializada, especialmente engenheiros."

Duas matérias da revista FAPESP de setembro tratam da internacionalização de centros de P&D  e apresentam dados importantes para orientar nossa atuação enquanto formadores de pesquisadores talentosos.

Centros de P&D de multinacionais no Brasil
O estudo da instalação no Brasil de “amplos laboratórios multinacionais que têm o objetivo de gerar conhecimento e desenvolver tecnologia para produtos invadores destinados ao mercado ou a clientes específicos” foi objeto de um projeto de pesquisa coordenado pelo pesquisador Sérgio Robles Reis de Queiroz.
O principal fator de atração das empresas é também a principal dificuldade apontada para a instalação dos centros de P&D no país: a mão de obra. Há, de um lado, abundância de doutores e, ao mesmo tempo, escassez de mão de obra especializada, “especialmente engenheiros”. No quesito “formação de engenheiros”, a reportagem destaca que apenas 5% dos egressos da graduação no Brasil são engenheiros, contra 25% na Coréia do Sul.
Os quatro principais fatores de atração dos centros de P&D, além da mão de obra, são o baixo custo, o ambiente e a estrutura de P&D do país e a necessidade de atender e adaptar produtos para o mercado e especificidades regionais do Brasil. Entretanto, na minha opinião, as razões econômicas, como não poderia deixar de ser, são as que orientam a vinda destes laboratórios para o país.
Na contramão, as quatro principais barreiras para a instalação dos centros de pesquisa no país são: as dificuldades para a importação, custo e burocracia, a instabilidade das políticas e questões regulatórias,  dificuldades internas às próprias empresas e barreiras à cooperação com universidades e centros de pesquisa. Destes fatores, cabe aqui explorar melhor as dificuldades internas às próprias empresas.
No longo caminho de cooperação com empresas que trilhamos no Laboratório de Fenômenos de Superfície, temos vivenciado o que cremos serem aspectos destas dificuldades internas às empresas. A dissociação entre matriz e filial; a disputa por áreas de influência; o naturalmente complexo alinhamento entre a área de P&D e as áreas de compras, contratos, marketing, RH e outras; as questões de sigilo; as diferenças culturais entre países; a prevalência de uma cultura intolerante ao erro; a ausência de um contexto capacitante e solidário são alguns fatores que temos apontado aos dirigentes das empresas como suscetíveis de melhora para otimizar os resultados das atividades de P&D.
Para finalizar este resumo, a matéria informa que o montante investido no Brasil em P&D por empresas norte-americanas foi de U$S 1,9 bilhão  no período 2002 – 2006, muito pouco considerando que elas investiram em outros 15 países mais de U$S 100 bilhões com valores que vão de 26,4 bilhões no Reino Unido a de 2,2 bilhões na Holanda – país logo acima do Brasil na lista de investimentos.
Centros de P & D de empresas multinacionais brasileiras no exterior
A “possibilidade de ter acesso a recursos tecnológicos inexistentes ou de dificil aquisição no Brasil”  e a “aquisição de uma subsidiária estrangeira possuidora de uma área de P & D” são razões para que as empresas brasileiras desenvolvam ações de P&D em solo estrangeiro. Estas constatações foram mapeadas em um projeto temático FAPESP coordenado pelo pesquisador Afonso Carlos Fleury. O estudo mostra ainda que a mão de obra especializada e a necessidade de atender normas específicas de um dado mercado também são razões importantes para as empresas brasileiras.
Há, como não poderia deixar de ser, uma simetria entre os dois estudos, uma vez que a razão última que move as empresas é a mesma e, de modo geral, as empresas copiam umas às outras, visando sincronizar seus movimentos de modo a não se distanciarem de seus concorrentes em caso de grandes mudanças no ambiente econômico.
O aspecto de “atender às necessidades de adequação” de um dado mercado se explica pela necessidade de certificação, que exigiria, caso o centro de P&D fosse centralizado no Brasil, todo um conjunto extra de atividades de certificação/adaptação do produto para o mercado-fim. Com as atividades de desenvolvimento sendo feitas no mercado-fim, o processo se simplifica enormemente. Notamos que esta razão é simétrica da  “necessidade de atender e adaptar produtos para o mercado e especificidades regionais do Brasil” evidenciada no projeto anterior.
Uma  decorrência da leitura das duas reportagens é que o mercado em P&D  para nossos graduandos e pós-graduandos é grande e está em expansão. Além disso, ele tem o mundo como horizonte profissional – o que deve atrair mais intensamente os jovens com vocação e que ao mesmo tempo desejam ter uma perspectiva profissional global e desafiadora.
Cabe a nós, formadores de opinião deste seleto público, divulgar os resultados das pesquisas e aplainar as dificuldades deste amplo caminho que se materializa.
Amilton Sinatora
Fontes:
Investimento Emergente, Marcos Oliveira, Danilo Zamboni (ilustrações), Revista  FAPESP No 175, p. 16-20,  setembro de 2010.
Centros Multinacionais Brasileiros. Yuri Vasconcelos, Revista  FAPESP No 175, p. 21-23,  setembro de 2010.
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Físicos na indústria

28/07/2009

Na edição deste mês da “Physics Today”, um artigo intitulado “Industrial R&D in transition” chamou bastante minha atenção.  Os autores R. Joseph Anderson and Orville R. Butler mostram um levantamento a respeito da colocação dos físicos no mercado de trabalho americano. Enquanto nos anos 70, metade dos físicos nos Estados Unidos estava no meio acadêmico, pouco mais de um terço estavam trabalhando na indústria. Esse número se inverteu nos anos 90, onde agora metade dos físicos está na indústria e um terço na academia, mostrando a grande importância da pesquisa de desenvolvimento dentro das indústrias.

Esse aumento no número de físicos na indústria tem um reflexo direto no volume de produtos com alto valor agregado fabricados naquele país, que sem dúvida leva a consideráveis aumentos no PBI. De fato, uma correlação entre o crescimento do PIB e da pesquisa em engenharia já foi sugerida.

Bom, e no Brasil? No Brasil, infelizmente a profissão de físico não é regulamentada, de modo que raramente as empresas têm físicos nos seus quadros funcionais. Além disso, a falta de política de pesquisa e desenvolvimento na grande maioria das empresas ajuda a perpetuar esse quadro. Sendo assim, a esmagadora maioria dos físicos no Brasil está na academia, e os que não estão, acabam batendo as asas para o exterior.

Um dos objetivos do INES é romper esse paradigma e atuar cooperativamente com diferentes setores produtivos do país, fazendo uma ponte entre a academia e o produto final. Mais ainda, é abrir novas perspectivas para a geração de tecnologias na área de engenharia de superfícies, que possam ser agregadas a produtos fabricados no Brasil. Com isso, podemos passar para um país com uma indústria verdadeiramente forte e competitiva, como já foi dito anteriormente nesse blog.

Por fim, fica a minha pergunta: Quando os físicos passaram a ser considerados profissionais de verdade no Brasil?

Abraços,

Gabriel