O complexo universo das interações universidade-empresa (parte2)

27/07/2009

Como comentado no post anterior, o projeto PITE não atingiu o objetivo principal que era aplicar inovadores tratamentos de nitretação por plasma em engrenagens de transmissões automotivas (título do projeto). Levantando as possíveis causas, posso enumerar as seguintes:

1. Existiam reuniões semanais, mas não existia um cronograma definido a ser seguido com deadlines. Muitas vezes esse problema é citado quando professores universitários estão envolvidos em projetos de pesquisa e já virou um clichê. É verdade que os pesquisadores geralmente não têm aulas de gestão e é um dos pontos a serem melhorados.

2. Nos primeiros problemas surgidos na nitretação por plasma de engrenagens para testes de campo, houve uma grande desmotivação por parte da EATON, resultando em pouco interesse na continuação deles. Que eu saiba, nunca um projeto começa com sucesso. Às vezes a busca de resultados imediatos atenta contra um projeto de desenvolvimento tecnológico. Estes projetos estão pensados para anos de trabalho (entre 2 e 4) e resultados bons só aparecem no final. Uma empresa deve ter persistência na busca do resultado e ela deve ter consciência que é um investimento de médio a longo prazo e NÃO de curto prazo.

3. O projeto PITE se caracteriza pela liberação de recursos em forma majoritária pela FAPESP porque ele é desenvolvido em uma instituição de pesquisa sem fins lucrativos. Quem administra esses recursos é o professor. O coordenador na empresa não tem intervenção nenhuma nesses recursos. Além disso, a FAPESP libera os recursos e solicita dois relatórios, um parcial e outro final. Segundo a minha visão, esse esquema é pouco eficiente para atingir as metas do projeto. Deveria existir uma avaliação mais rigorosa dos recursos públicos aplicados pela FAPESP, não pela fiscalização mesma deles, senão para aumentar a probabilidade de sucesso de um projeto financiado com fundos dos contribuintes. Deveriam existir avaliações de avanço trimestral com liberações mais parceladas. Exigir um plano de pesquisa e desenvolvimento dividido em etapas com objetivos claros e fáceis de avaliar facilitaria o julgamento. Além do mais, ouvir as opiniões do coordenador na empresa sobre o avanço do projeto daria um rico feedback.

Resumindo, levantei 3 pontos que caracterizam os três atores envolvidos (professor, coordenador na empresa e agência pública de financiamento) e os problemas mais relevantes que surgiram com cada um deles no projeto PITE relatado. O que gostaria de frisar é que essa equipe deveria estar mais integrada focando no interesse de todos: atingir os objetivos do projeto.

Carlos A. Figueroa

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O complexo universo da interação universidade-empresa

24/06/2009

Prezados/as leitores/as,

Hoje começarei descrevendo o objetivo da série de posts da minha autoria. Sendo um profissional com atuação acadêmica e empresarial na área da engenharia de superfícies, gostaria de compartilhar algumas experiências, visões e opiniões do complexo universo da interação universidade-empresa. Em particular, falarei sobre o que acontece no dia-a-dia desta interação, a qual merece uma abordagem urgente visando diminuir diferenças e consolidar um aparelho científico-tecnológico dinâmico, interligado e competitivo de nível internacional.

Também falarei da pesquisa aplicada e do desenvolvimento tecnológico como ferramentas para solucionar problemas sociais atuais e como fonte de riqueza sem que isso signifique sacrificar rigor e qualidade científica. Finalmente, levantarei e analisarei estatísticas e tendências do setor da engenharia de superfícies.

Sempre que puder, falarei com dados concretos e referências.

No meu primeiro texto, vou relatar um caso de interação universidade-indústria que vivenciei muito de perto na minha época de estudante de doutorado. Durante os anos 2000-2003 participei do projeto PITE de inovação tecnológica financiado pela FAPESP e pela multinacional EATON Ltda. e sediado no Instituto de Física “Gleb Wataghin” da UNICAMP. Intitulado “Aplicações industriais de métodos de nitretação com fornos de plasma e implantação iônica para tratamento de aços usados em sistemas de transmissão automotiva”, o projeto começou com grande impulso e vigor com a criação do Laboratório de Implantação Iônica e Tratamento de Superfícies (LIITS). Neste espaço físico com infra-estrutura civil financiada pela EATON foi construída uma nitretadora por plasma escala planta piloto com tecnologia 100 % nacional. O projeto era gerenciado pelos coordenadores responsáveis na UNICAMP e na EATON. A metodologia de reuniões semanais funcionou normalmente. Porém, nesse período de tempo não se atingiu o objetivo principal destacado no título do projeto, ou seja, aplicar a nitretação por plasma em aços usados em sistemas de transmissão automotiva. No próximo texto levantarei alguns pontos importantes visando explicar esse fato.

            Um abraço,

            Carlos A. Figueroa