Memorando Cosan-Shell: mais um passo na história do álcool motor no Brasil

19/02/2010

O memorando de entendimento firmado em 01-02-2010 entre a Cosan e a Shell visando a formação de uma joint venture para se “posicionarem em condições mais sólidas para crescimento e rentabilidade na área de biocombustíveis sustentáveis” é mais um passo na trajetória épica do uso do álcool como combustível no Brasil.

A Cosan tem capacidade de produção de 2 bilhões de litros de etanol por ano em 23 usinas, dispõe de uma rede de distribuição de 1.730 postos de combustível e, passados quase 100 anos, segue uma trajetória aberta por usineiros nordestinos no século passado.

Duas tentativas marcaram os primeiros passos da comercialização do álcool combustível. A USGA, combustível cuja elaboração foi iniciada na Usina Serra Grande em Alagoas, agregava ao etanol 20% de éter e 0,5% de óleo de rícino e foi comercializada em Pernambuco e Alagoas. Seu lançamento oficial em frente ao prédio do Diário de Pernambuco no centro do Recife inaugurou a “primeira bomba para comercialização de um combustível nacional em todo o Brasil” em 23 de junho de 1927. O Álcool-Motor Catende, desenvolvido na usina Catende em Pernambuco, alcançou, mais tarde, a preferência dos motoristas em todo o Nordeste, sendo exportado para estados de outras regiões do país.

Essas iniciativas não vingaram pois as circunstâncias econômicas não eram favoráveis e os obstáculos eram muito grandes. Um deles, a agressividade do álcool às parte metálicas dos motores, continua sendo um fator técnico a ser considerado ainda hoje. O outro, a oposição dos produtores de gasolina, na época representados pela Great Western Brazil Railway, parece não mais ser importante, como sugere o memorando firmado.

No início do século XX, os precursores com seus produtos de nomes pitorescos (Motogas, Nortina, Nacionalina, Motorina, Nog, Azulina, USGA e Álcool-motor Catende) não podiam sonhar com a abrangência de distribuição dos 1.730 postos da Cosan e os 2.740 da Shell. Abismados também ficariam os pioneiros de Minas Gerais que desenvolveram a Vigelina a partir de álcool de madeira se soubessem dos recursos da Iogen, empresa especializada na biotecnologia do etanol celulósico da qual a Shell detém 50% de participação e que faz parte do futuro negócio Cosan-Shell.

Que os novos tempos e novas formas de fazer negócios colaborem para o sucesso no emprego do álcool como forma de mitigar os efeitos nocivos do petróleo.

Amilton Sinatora

Referências

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Álcool combustível no Brasil – Pesquisa no Nordeste e no Rio de Janeiro

02/02/2010
A predileção patriótica pelo alcool em relação ao petróleo manifestou-se no começo do século XX devido ao Congresso do Álcool de 1903, principalmente nos estados de Alagoas e Pernambuco. O álcool foi oficializado como combustível automobilístico nacional por decreto do governo de Pernambuco em 1919.
São bases para este clima pró-alcool o aumento de produção de açucar para suprir a Europa, cuja produção a partir da beterraba fora devastada na I Guerra Mudial, o que ocasionou excesso de produção de álcool no Nordeste; o sentimento anti-inglês decorrente do assassinado de Delmiro Gouveia na cidade de Pedra em Alagoas em 10 de outubro de 1919, associado à empresa inglesa Machine Cottons, e as contas externas deficitárias em parte devido à importação de combustível (gasolina).
O governo de Pernanbuco determinou em 1919 que os (poucos) veículos públicos empregassem álcool de cana de açucar. Na presidência do paraíbano Epitácio Pessoa (1919 – 1922), os professores Aníbal R. Mattos e José Julio Rodrigues, do curso de Química Industrial de Recife, desenvolveram e testaram uma mistura a base de álcool e éter que batizaram de Motogás.  Em 22 de dezembro de 1921 foi fundada a Estação Experimental de Combustíveis e Minérios do Ministério da Agricultura, liderada pelo engenheiro Ernesto Lopes da Fonseca Costa, na então capital federal.
É interessante observar a atualidade das funções daquela repartição: “… investigar e divulgar os melhores processos industriais e o aproveitamento dos combustíveis e minérios do país”;  “estudar o enriquecimento de combustíveis, métodos de queima e aproveitamento, destilação de xistos betuminosos, utilização de combustívies na siderurgia, aproveitamento de minérios de ferro, aproveitamento de materias para fabricação de cimentos, utilização de produtos nacionais na fabricação de refratários”. Quem conhece os planos de apoio à pesquisa vigentes nesta primeira década do século XXI nota que a agenda permanece, feliz ou infelizmente, atual.
O encarregado de “pesquisar a fundo o uso do álcool no desempenho dos motores  a explosão” foi Heraldo de Souza Mattos, liderando a equipe formada por Moraes Rego, Paulo Accioly de Sá, Silvio Fróes de Abreu, Anibal Pindo de Souza, Thomas Legall (inglês) e Eduardo Sabino de Oliveira,  jovem engenheiro formado pela Escola Politécnica de São Paulo.
No governo do mineiro Artur Bernardes (1922-1926) testou-se o uso do álcool de batata doce no trajeto parque do Trianon (na Avenida Paulista) –  alto da Mooca (então região idustrial da cidade de São Paulo) por Luiz Pereira Barreto (1922). Em 1923 a equipe da Estação Experimental inscreveu no Primeiro Grande Prêmio da Gávea um Ford que percorreu 230km da prova consumindo 20l de álcool a cada 100km. Os competidores referiam-se ao combustível não como álcool mas como cachaça produzida em Parati. Segundo os dados sobre o combustível (26,9 Cartier ou 70,9 G.L.), deveria ser uma cachaça extremamente forte diante das atuais que têm aproximadamente 40 G.L.
Em 23 de novembro de 1925 na então Escola Polytechnica do Rio de Janeiro (atual Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro) transcorreu a apresentação pública dos resultados das pesquisas realizadas na Estação de Combustíveis.  A conferência proferida pelo engenheiro Ernesto Lopes da Fonseca Costa, diretor da Estação, deve ter sido o primeiro encontro científico documentado sobre o uso do álcool em motores de combustão interna no país.
Amilton Sinatora
Referência.
“A saga do álcool” J. Natale Netto (Editora. Novo Século 2007) Capítulo 4 pp 61 – 82 Ações nacionalistas, em marcha.

O uso do álcool em motores no Brasil desde 1919 e os motores Flex Fuel de 2010

12/01/2010
Os ensaios do Professor Evandro Mirra em seu livro “A Ciência que sonha e o verso que investiga” têm, cada um deles, um ensinamento registrado por quem faz a história da ciência no Brasil.
No ensaio “Inovação para um desenvolvimento sustentável” ele nos surpreende com os seguintes trechos que transcrevo como aperitivos do livro.
“….no início do século XX, quando foram realizadas as primeiras tentativas de utilização do etanol como combustível em motores de veículos, a partir de 1919, em Alagoas e Pernambuco, no Nordeste brasileiro…”
Em 1925 o presidente Epitácio Pessoa declararia que era importante substituir o petróleo uma vez que “ A produção mundial de petróleo começa a se tornar insuficiente para o consumo…”
“ ..o governo Vargas estabeleceu, em 1931 a obrigatoriedade da adição de álcool à gasolina em plano nacional” (…) “ O programa vigorou por vários anos até ser suspenso por razões econômicas, ao final de Segunda Guerra Mundial, com o argumento de que o baixo preço então vigente para a gasolina tornava o etanol pouco competitivo” (…) “ O legado de capacitação técnica e organizacional foi, contudo, extremamente significativo.  Múltiplos problemas foram abordados e resolvidos, envolvendo aspectos como rendimento das misturas carburantes; análise dos diversos tipos de álcool-motor fabricados; instalação das bombas de álcool, inspeção das usinas; verificação da qualidade da gasolina importada; regulagem dos carros que passaram a empregar o álcool.”
Aquele legado foi ampliado enormemente no período posterior a 1975 com o Pró-álcool, o desenvolvimento dos motores flex-fuel e os programas de bio combustíveis, mas estas são outras histórias.
Nada de (muito) novo sob o sol nos últimos cem anos!
Amilton Sinatora