Álcool combustível no Brasil – Pesquisa no Nordeste e no Rio de Janeiro

02/02/2010
A predileção patriótica pelo alcool em relação ao petróleo manifestou-se no começo do século XX devido ao Congresso do Álcool de 1903, principalmente nos estados de Alagoas e Pernambuco. O álcool foi oficializado como combustível automobilístico nacional por decreto do governo de Pernambuco em 1919.
São bases para este clima pró-alcool o aumento de produção de açucar para suprir a Europa, cuja produção a partir da beterraba fora devastada na I Guerra Mudial, o que ocasionou excesso de produção de álcool no Nordeste; o sentimento anti-inglês decorrente do assassinado de Delmiro Gouveia na cidade de Pedra em Alagoas em 10 de outubro de 1919, associado à empresa inglesa Machine Cottons, e as contas externas deficitárias em parte devido à importação de combustível (gasolina).
O governo de Pernanbuco determinou em 1919 que os (poucos) veículos públicos empregassem álcool de cana de açucar. Na presidência do paraíbano Epitácio Pessoa (1919 – 1922), os professores Aníbal R. Mattos e José Julio Rodrigues, do curso de Química Industrial de Recife, desenvolveram e testaram uma mistura a base de álcool e éter que batizaram de Motogás.  Em 22 de dezembro de 1921 foi fundada a Estação Experimental de Combustíveis e Minérios do Ministério da Agricultura, liderada pelo engenheiro Ernesto Lopes da Fonseca Costa, na então capital federal.
É interessante observar a atualidade das funções daquela repartição: “… investigar e divulgar os melhores processos industriais e o aproveitamento dos combustíveis e minérios do país”;  “estudar o enriquecimento de combustíveis, métodos de queima e aproveitamento, destilação de xistos betuminosos, utilização de combustívies na siderurgia, aproveitamento de minérios de ferro, aproveitamento de materias para fabricação de cimentos, utilização de produtos nacionais na fabricação de refratários”. Quem conhece os planos de apoio à pesquisa vigentes nesta primeira década do século XXI nota que a agenda permanece, feliz ou infelizmente, atual.
O encarregado de “pesquisar a fundo o uso do álcool no desempenho dos motores  a explosão” foi Heraldo de Souza Mattos, liderando a equipe formada por Moraes Rego, Paulo Accioly de Sá, Silvio Fróes de Abreu, Anibal Pindo de Souza, Thomas Legall (inglês) e Eduardo Sabino de Oliveira,  jovem engenheiro formado pela Escola Politécnica de São Paulo.
No governo do mineiro Artur Bernardes (1922-1926) testou-se o uso do álcool de batata doce no trajeto parque do Trianon (na Avenida Paulista) –  alto da Mooca (então região idustrial da cidade de São Paulo) por Luiz Pereira Barreto (1922). Em 1923 a equipe da Estação Experimental inscreveu no Primeiro Grande Prêmio da Gávea um Ford que percorreu 230km da prova consumindo 20l de álcool a cada 100km. Os competidores referiam-se ao combustível não como álcool mas como cachaça produzida em Parati. Segundo os dados sobre o combustível (26,9 Cartier ou 70,9 G.L.), deveria ser uma cachaça extremamente forte diante das atuais que têm aproximadamente 40 G.L.
Em 23 de novembro de 1925 na então Escola Polytechnica do Rio de Janeiro (atual Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro) transcorreu a apresentação pública dos resultados das pesquisas realizadas na Estação de Combustíveis.  A conferência proferida pelo engenheiro Ernesto Lopes da Fonseca Costa, diretor da Estação, deve ter sido o primeiro encontro científico documentado sobre o uso do álcool em motores de combustão interna no país.
Amilton Sinatora
Referência.
“A saga do álcool” J. Natale Netto (Editora. Novo Século 2007) Capítulo 4 pp 61 – 82 Ações nacionalistas, em marcha.
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Álcool combustível no Brasil – primeiros passos

27/01/2010
A discussão sobre os efeitos do álcool nos motores de combustão interna e o envolvimento da comunidade científica no assunto inspiram a busca pelo que já foi feito pelos que nos antecederam. O livro “A saga do álcool” do jornalista J. Natale Netto (Editora. Novo Século 2007 343pp.) traz informações muito interessantes que resumo a seguir.
No final do século XIX, os carros (desde o Peugeot de Alberto Santos Dumont, o primeiro veículo importado em 1891) eram propelidos a álcool. Em 1903, na frota da capital federal (Rio de Janeiro), que incluía além do Peugeot, um Dacauville licenciado por Fernado Guerra Durval, mais seis veículos empregavam apenas alcool como  combustível!
O crescente uso de derivados de petróleo na iluminação e nos motores não impediu que o  presidente Rodrigues Alvez e o presidente da Sociedade Nacional de Agricultura – Antonino Fialho, que  acompanhava a tecnologia da época em decorrências de viagens pela Europa – fossem defensores do uso do ácool combustível, o qual consideravam um “produto limpo” diferentemente do querosene e do óleo de baleia.
Dois outros fatores foram importantes para o apoio ao uso do álcool como combustível. Os preços daqueles combutíves importados (com reflexos nas contas públicas) e a crise pela qual passava a indústria açucareira nacional.
As demandas pela substituição do querosene “importado do estrangeiro a bom dinheiro e que não tem as mesmas vantagens de higiene, duração e economia do álcool produzido em nossos engenhos” confluiram para a realização de uma exposição internacional de equipamentos nos quais o álcool poderia ser utilizado e do I Congresso das Aplicações Industriais do Álcool na então capital da república, em 18 de outubro de 1903. No evento foi realizada uma demonstração do uso do álcool nos automóveis.
Da exposição e do congresso decorreram recomendações ao governo para que as repartições públicas usassem álcool na geração de calor e na iluminação. A Marinha se comprometeu a aplicar este combustível na iluminação dos faróis da costa brasileira. Desenvolveu-se uma ampla campanha na imprensa pelo uso do “combustível iluminante, calorífico e motriz” e o clero instruiu aos seus seminários a inclusão de uma cadeira de Economia Rural no bojo da qual fosse vulgarizada as aplicações do álcool como combustível!
Para o Brasil, foi a primeira oportunidade (perdida!) para diminuir suas dívidas internacionas e desenvolver seu próprio comburente, uma vez que o uso do querosene somente se expandiu quando, apartir de 1912 passou a ser distribuido em tambores.
Amilton Sinatora
Referência
Os primeiros passos do alcool em nossa história, em “A saga do álcool”, J. Natale Netto (Editora. Novo Século 2007). Capítulo 3, páginas 47 a 59.