Significativas mudanças no relacionamento com empresas: anotações

21/09/2010

"uma ideia difusa de que era preciso fazer alguma coisa com as empresas"

1. “precisamos fazer alguma coisa junto com as universidades”

O meu primeiro contrato de longo prazo com empresas foi em 1994. Era comum ouvir das empresas “precisamos fazer alguma coisa juntos”, reflexo da necessidade de apoio da academia ou, o que era mais comum, da intuição desta necessidade. Fomos, empresas e universidade, aprendendo com o tempo e com a multiplicação dos contatos. Na academia aprendemos a fazer anamnese. Como os médicos antigos, aprendemos a ouvir nossos pacientes e com isto percebíamos que, na maioria das vezes, as empresas, como os pacientes, não sabiam exatamente onde doia e o que exatamente elas queriam no contato com a universidade.
2. “precisamos fazer alguma coisa junto com as empresas”
Éramos movidos por uma ideia difusa de que “era preciso fazer alguma coisa com as empresas”. Lutáramos na USP, nos anos 80, com uma fortíssima crise de recursos. Nos faltavam as condições mínimas de trabalho. Não havia manutenção das edificações, não havia material de consumo. Mesmo para higiene básica não havia verba suficiente. Buscar recursos nas empresas era então uma alternativa obvia. Outra preocupação difusa era em transformar conhecimento em PIB, aplicar o que havíamos acumulado à custa do poder público para gerar renda e crescimento. Isto nos remetia em direção às empresas e menos intensamente para atividades sociais.
Mesmo assim, ou por isso mesmo, iniciamos um processo longo de aprendizado mútuo. Aprendemos a ouvir, a planejar, a custear o serviço, a entregar no prazo. Aprendemos a negociar com o cliente entendendo que nosso contato tem um chefe, uma estrutura a obedecer, um sistema todo particular de custeio, de compras e de controle. Aprendemos por fim que o cliente de nosso cliente é o termômetro da qualidade de nossas atividades.
3. “contraponto”
Hoje continuamos a receber empresas que no fundo “querem fazer alguma coisa juntos”; ou seja, são necessárias longas conversas para descobrir exatamente o que elas querem.
Entretanto já é expressivo o número de  empresas que chega ao LFS com um pedido específico, com objetivos e prazos bem definidos, com orçamentos delimitados .
Quais são as novidades por trás dessa mudança?
Uma delas é a existência de um número cada vez maior de pessoas dedicadas à inovação nas empresas. Muitas delas são egressas de programas de pós-graduação, com títulos de mestre e doutor. Ou seja, conhecem a linguagem, as possibilidades e os aspectos do relacionamento que terão que ser melhorados ao longo do contato. Elas são também, frequentemente, jovens. São sucessores de gestores tradicionais. Por isto, cada vez mais frequentemente, elas trabalham melhor em equipe, sabem usar o conhecimento dos outros e não se sentem (indevidamente) tão inferiorizadas pelo saber acadêmico. Com isto começamos a ter encontros com empresas muito produtivos e eficazes. Rapidamente se mapeiam os recursos e as necessidades e se definem objetivos e condições de contorno.
Outra mudança se deve ao crescimento do mercado interno e ao aumento da importância do Brasil enquanto plataforma exportadora. Algumas parcerias entre empresas, que envolviam “transferência de tecnologia” com ênfase na transferência de procedimentos de projeto e de fabricação obsoletos sem valorizar o know why, estão em crise. O “parceiro tecnológico” passa a aspirar uma fatia maior do faturamento oriundo do Brasil. Quando isto conflita com a visão dos dirigentes da empresa nacional, que também querem uma fatia maior do  mercado, se manifesta a necessidade de parcerias com universidades e centros de pesquisa. Estas demandas que passamos a receber têm um toque de urgência e demandam competências já estabelecidas nas universidades. Não dá tempo de “aprender o assunto”.
Outra vertente da atual “corrida às universidades” são os desafios tecnológicos impostos pelo crescimento econômico, com destaque para o desafio do pré-sal. As demandas tecnológicas colocadas sobre os fornecedores colocaram em cheque o modelo de desenvolvimento de tecnologia baseado em “engenharia reversa”, experiência prática e apoio em normas técnicas. Um saboroso documento do PROMINP (Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural), “Diagnóstico dos gargalos e proposição de Ações Tecnológicas” descreve a incapacidade de muitas empresas em fazer “engenharia racional” (!!) – um jeito elegante de dizer que pode haver algum engenho em copiar, mas que engenharia de fato há pouco! Isto tem também alimentado a corrida das empresas às universidades.
Me parece pouco provável que nós das universidades consigamos atender sequer as principais demandas. Um caminho para aumentar nossa capacidade de resposta é aprofundarmos nossas sinergias, pondo para funcionar de fato iniciativas como o  Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies.

Amilton Sinatora

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Oportunidades: apoio do CNPq à tecnologia e inovação

23/07/2010
Microscópio eletrônico de varredura

Empresas e pesquisadores podem aproveitar as oportunidades de financiamento de recursos humanos para inovação oferecidas pelo CNPq.

O CNPq anunciou em julho duas oportunidades para empresas e pesquisadores que fazem ou querem fazer desenvolvimento tecnológico e inovação.

Uma delas é a terceira rodada de 2010 das bolsas RHAE Pesquisador na Empresa, que já foram objeto de post neste blog. Essas bolsas financiam o pagamento de doutores e mestres para trabalhar em atividades de pesquisa tecnológica e inovação em empresas de micro, pequeno e médio porte (receita bruta anual igual ou inferior a R$ 60 milhões) e sede e administração no Brasil. Os valores das bolsas variam, de acordo com o título e experiência do pesquisador e a região do país, entre R$2.200 e R$4.500.
Para concorrer às bolsas, as empresas devem enviar propostas de projetos de desenvolvimento tecnológico de produtos ou processos que visem ao aumento da sua competitividade, a ser realizados em até 30 meses. A data limite para submissão de propostas é o dia 27 de agosto. Mais informações no edital.
A proposta deve mencionar a quantidade e o perfil dos pesquisadores necessários para a realização do projeto. Se aprovada a proposta, a empresa deverá fazer as indicações dos bolsistas. Cada projeto poderá receber um máximo de R$300 mil em bolsas. A empresa deverá aportar uma contrapartida mínima de 20% do valor do projeto, em recursos financeiros ou não financeiros, tais como salários, passagens, seguros, equipamentos e material bibliográfico.
Parcerias com universidades, outras empresas e demais organizações que agreguem recursos (financeiros ou não) para a execução do projeto são esperadas e levadas em conta na avaliação da proposta.
Do ponto de vista da empresa, as bolsas RHAE ajudam a diminuir os custos do desenvolvimento (os recursos de custeio e capital deverão ser desembolsados pela companhia e podem ser lançados como contrapartida segundo indicado no edital). Do ponto de vista do pesquisador, é uma porta de entrada ao mundo empresarial e uma excelente oportunidade de levar ao mercado anos de trabalho laboratorial. É importante destacar que não só existe a possibilidade de a empresa ter a iniciativa de inovar e procurar o candidato, mas também a de o pesquisador levar um projeto até a empresa e convencê-la da sua viabilidade e importância.
No regulamento consta a lista de setores industriais que devem ser contemplados nos projetos (automotivo, têxtil, biodiesel, aeronáutico, petróleo, mineração, etc.) – muitos deles relacionados à engenharia de superfícies.
A segunda oportunidade anunciada pelo CNPq se refere às bolsas de produtividade em desenvolvimento tecnológico e extensão inovadora (bolsas DT), cuja finalidade é distinguir o pesquisador doutor (titulado há pelo menos três anos) que possua uma produção destacada em desenvolvimento tecnológico e inovação. Os valores mensais variam de R$1.100 a R$1.500, com adicionais de bancada de R$1.000 a R$1.300. Os pesquisadores interessados em se inscrever podem fazê-lo por meio da Plataforma Carlos Chagas do CNPq até o dia 18 de agosto.

O uso do álcool em motores no Brasil desde 1919 e os motores Flex Fuel de 2010

12/01/2010
Os ensaios do Professor Evandro Mirra em seu livro “A Ciência que sonha e o verso que investiga” têm, cada um deles, um ensinamento registrado por quem faz a história da ciência no Brasil.
No ensaio “Inovação para um desenvolvimento sustentável” ele nos surpreende com os seguintes trechos que transcrevo como aperitivos do livro.
“….no início do século XX, quando foram realizadas as primeiras tentativas de utilização do etanol como combustível em motores de veículos, a partir de 1919, em Alagoas e Pernambuco, no Nordeste brasileiro…”
Em 1925 o presidente Epitácio Pessoa declararia que era importante substituir o petróleo uma vez que “ A produção mundial de petróleo começa a se tornar insuficiente para o consumo…”
“ ..o governo Vargas estabeleceu, em 1931 a obrigatoriedade da adição de álcool à gasolina em plano nacional” (…) “ O programa vigorou por vários anos até ser suspenso por razões econômicas, ao final de Segunda Guerra Mundial, com o argumento de que o baixo preço então vigente para a gasolina tornava o etanol pouco competitivo” (…) “ O legado de capacitação técnica e organizacional foi, contudo, extremamente significativo.  Múltiplos problemas foram abordados e resolvidos, envolvendo aspectos como rendimento das misturas carburantes; análise dos diversos tipos de álcool-motor fabricados; instalação das bombas de álcool, inspeção das usinas; verificação da qualidade da gasolina importada; regulagem dos carros que passaram a empregar o álcool.”
Aquele legado foi ampliado enormemente no período posterior a 1975 com o Pró-álcool, o desenvolvimento dos motores flex-fuel e os programas de bio combustíveis, mas estas são outras histórias.
Nada de (muito) novo sob o sol nos últimos cem anos!
Amilton Sinatora

Bolsas RHAE para mestres e doutores em empresas – no caminho certo!

17/11/2009
Dia quatro de novembro em Brasília, 14 empresas beneficiadas com bolsas RHAE para fixar mestres e doutores em atividades de inovação, apresentaram os projetos desenvolvidos por estes profissionais altamente qualificados.
As empresas que apresentaram trabalhos foram escolhidas entre as mais de 130 beneficiadas pelo edital de 2007 (20 milhões de reais). Elas tiveram tempo suficiente para desenvolverem suas atividades, obter resultados e amadurecerem as principais dificuldades.
Foi feito e apresentado um relatório dos resultados deste investimento público. Entretanto, o que me parece importante compartilhar foi o entusiasmo dos empresários e o compromisso dos bolsistas com as atividades inovadoras das empresas. Todos os projetos têm características de inovação e, em alguns casos, de invenções que estão sendo desdobradas em produtos, serviços ou processos.
Foi unânime destacar o papel do financiamento das bolsas como fator alavancador das atividades das empresas e muitos enfatizaram o importante papel de outras linhas de financiamento do CNPq, da FINEP e das fundações estaduais de apoio, na viabilização das atividades inovadoras das empresas, com destaque para a Fundação Araucária e da FAPESP.
O baixo valor das bolsas foi o vilão responsável pela dificuldade na contratação e manutenção de bolsistas, especialmente os de doutorado. Doutores bolsistas são em menor número do que mestres e mais frequentes em pequenas empresas já bem estruturadas e em SP.
A conclusão positiva desta dificuldade é que houve aumento da empregabilidade dos pós graduados e uma das soluções encontradas – tornar o bolsista sócio da empresa – mostra o desenvolvimento da visão empreendedora destes pequenos empresários com boas perspectivas para o país.
Amilton Sinatora


Inovação, trabalhadores qualificados e o câmbio valorizado

10/11/2009
Inovação, trabalhadores qualificados e o câmbio valorizado
Questionar paradigmas é sempre saudável especialmente para pesquisadores. Em mais uma instigante matéria o professor Naércio Menenzes Filho mostrou na edição de 2 de outubro de 2009 do Jornal Valor Econômico, que o câmbio valorizado pode ter efeito positivo sobre a produtividade e o crescimento de nossas empresas.
No período recente de crescimento, interrompido pele crise do ano passado, as importaç?os brasileiras cresceram aceleradamente. Entretanto a que mais cresceu foi a de bens intermediários pois as empresas se aproveitaram do câmbio para diminuir curstos, aumentar a produção e, ao menos potencialmente, beneficiar o consumindor com menores preços
Em segundo lugar cresceram as importações de bens de capital, o que indica que as empresas estão incorporando novas tecnologias o que também deve causar diminuição no preço e aumento da produtividade.
Contrariando as notícias mais chamativas, os bens de consumo não apenas representam o menor valor das importações como na sua totalidade representam o item que teve na história recente, menor crescimento.
Publicações recentes respaldam estas considerações e o efeito positivo das importações, ou seja o, efeito positivo da competição entre empresas via importação. É importante saber que este efeito positivo existirá e será  tanto maior quanto mais próximas da fronteira tecnológica estiverem as empresas pois estas tem mais facilidade de inovar para competir. Isto só é possível com trabalhadores qualificados como os formados nos programas de pós graduação nos quais os pesquisdores do Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies atuam.
Amilton Sinatora
Questionar paradigmas é sempre saudável, especialmente para pesquisadores.
Em mais uma instigante matéria, o professor Naércio Menenzes Filho mostrou na edição de 2 de outubro de 2009 do Jornal Valor Econômico que o câmbio valorizado pode ter efeito positivo sobre a produtividade e o crescimento de nossas empresas.
No período recente de crescimento, interrompido pele crise do ano passado, as importações brasileiras cresceram aceleradamente. Entretanto, a que mais cresceu foi a de bens intermediários, pois as empresas se aproveitaram do câmbio para diminuir custos, aumentar a produção e, ao menos potencialmente, beneficiar o consumidor com menores preços.
Em segundo lugar, cresceram as importações de bens de capital, o que indica que as empresas estão incorporando novas tecnologias – o que também deve causar diminuição no preço e aumento da produtividade.
Contrariando as notícias mais chamativas, os bens de consumo não apenas representam o menor valor das importações como, na sua totalidade, representam o item que teve, na história recente, menor crescimento.
Publicações recentes respaldam estas considerações e o efeito positivo das importações, ou seja o, efeito positivo da competição entre empresas via importação. É importante saber que este efeito positivo existirá e será  tanto maior quanto mais próximas da fronteira tecnológica estiverem as empresas, pois estas têm mais facilidade de inovar para competir. Isto só é possível com trabalhadores qualificados como os formados nos programas de pós-graduação nos quais os pesquisadores do Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies atuam.
Amilton Sinatora