Abrasão, o meio interfacial por outras óticas

27/08/2010

Tribologia + estudos de cominuição podem reduzir custos e riscos na construção de moinhos de minério.

Meu amigo Giuseppe Pintaúde, hoje professor na UTFPR em Curitiba abriu sua tese de doutorado sobre abrasão (“Análise dos Regimes Moderado e Severo de Desgaste Abrasivo Utilizando Ensaios Instrumentados de Dureza”) em 2002 com a seguinte citação:

“Ouça-me bem amor

Preste atenção, o mundo é um moinho

Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.

Vai reduzir as ilusões a pó”

A saudade do bom gosto do Giuseppe por música é o que primeiro me ocorre. Passamos no Laboratório de Fenômenos de Superfície um período com pouca música, pouca poesia, pouca leitura e pouca vida cultural. Coisas da objetividade exacerbada no trabalho científico e da confluência de desinteresses nestes temas dos que por aqui passaram recentemente.

Outra percepção é sobre a rara sensibilidade do poeta e da sua visão trágica da condição humana. Somos meros pedaços de chão triturados de volta à nossa original condição de pó. Somos fragmentos de coisas que já existiram, momentaneamente consolidados na forma de “nós mesmos” usufruindo desta propriedade transitória que é viver. A “coisa-nós”, lembra o poeta, é desagregada pela vida, reiniciando o ciclo de fazer parte de todas e quaisquer coisas que existam, complemento eu, metendo minha colher no trágico-sem-solução do poema.

A preocupação do poeta, o compositor Cartola, não deveria ser tratar intencionalmente do meio interfacial, o minério, cominuido entre corpos moedores e revestimento de moinhos, embora para mim seja esta outra forte imagem que a música sugere. O destino (tribológico) dos abrasivos não é tão estudado pelos tribologistas como o destino dos corpos (e contra corpos). Para muitos de nós o abrasivo é considerado, talvez, como algo menor ou menos científico, ou, então, como a causa de um problema: a abrasão.

Não é assim que pensam os colegas que estudam tratamento de minério, em particular os estudiosos da moagem como o Prof. Luis Marcelo Tavares da UFRJ. Para eles o estudo da fragmentação do abrasivo é um tema central de pesquisa que tem como foco a energia necessária no processo de moagem, de forma a poder modelar e dimensionar moinhos. Empregando uma abordagem reducionista extremamente racional e lúcida, o Prof. Tavares e equipe medem a energia necessária para fraturar grãos de um dado minério. Os resultados, integrados mediante trabalho experimental e de modelagem laborioso, estão no ponto de permitir análise dos fenômenos de cominuição em pequenos moinhos de laboratório e tem brilhantes perspectivas de evolução.

Acoplar a abordagem dos tribologistas e dos estudiosos da cominuição tem como pote de ouro no fim do arco iris enormes economias de matéria-prima, reduções nas paradas para manutenção e, principalmente, redução nos riscos e custos no dimensionamento de novos moinhos de grande porte.

Amilton Sinatora

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Tribologia no Espírito Santo tem avanço estratégico

06/05/2010

Participei de uma banca de defesa de dissertação de mestrado no Programa de Pós Graduação em Engenharia Mecânica na Universidade Federal do Espirito Santo a convite do orientador, Professo Cherlio Skandian.

O trabalho versava sobre abrasão, e o tema,  a correlação entre ensaios de abrasão, é muito importante, uma vez que não há como gerar novas soluções para as graves perdas por desgaste que ocorrem na indústria de mineração e nos setores primários da economia sem que para isto sejam aplicados os ensaios laboratoriais adequados.

O trabalho de mestrado do engenheiro Leandro Dutra discute e valida dentro das condições experimentais empregadas, o critério proposto por Zum Gahr (Microstructure and wear of materials de 1987), que divide os ensaios de desgaste abrasivo em dois grupos. Num deles, os ensaios são feitos com profundidade constante e no outro, com força constante.

O mestrado constitui-se, portanto, em um bom porto de partida para aqueles que buscam soluções tecnológicas para os problemas de abrasão. A este primeiro passo cabe acrescentar as  essenciais informações que decorrem da análise dos mecanismos e dos esforços em campo. Para os que buscam modelar os fenômenos de desgaste e criar modelos preditivos de abrasão cabe, além dos passos acima, incorporar as consierações apontadas por Ludema em post anterior (Como estão os modelos e equações preditivas de desgaste?).

Foi importante verificar que, à qualidade técnica das atividades do grupo de pesquisa, o Laboratório de Tribologia Corrosão e Materiais constrói uma sólida relação com o setor minero metalúrgico – tão importante no Espírito Santo, com empresas como a CSN, Petrobrás, Samarco e Vale. Nesta defesa de mestrado casaram-se adequadamente a visão de aplicação com uma inovadora abordagem acadêmica.

Amilton Sinatora