Publicar ou perecer (2) Por que publicar? – A divulgação científica.

21/05/2010

Barragem do Xingó

Encontrar o Professor Evandro Mirra é sempre uma oportunidade para ampliar os horizontes. Desta vez, em Ouro Preto em 6 de maio, não foi diferente. Pude contar ao colega as duas viagens que fiz em decorrência da leitura do seu livro “A Ciência que sonha e o verso que investiga”.

Uma, a viagem física, foi para a barragem de Xingó no médio São Francisco. Nas cercanias da barragem, no município de Canindé do São Francisco, em Sergipe, pude ver o efeito positivo da ação do CNPq materializada no Museu Arqueologia do Xingó, que preserva uma parcela do acervo arqueológico coberto pela imensidão da represa. Também pude aprender muito sobre a arqueologia, a cultura e as belezas da região que têm nos canions do rio São Francisco seu carro chefe.
A outra, a viagem intelectual, guiada por seu livro-bússola, foi rumo aos caminhos nordestinos, cariocas, mineiros e paulistas trilhados pelos brasileiros rumo ao uso do álcool como combustível. Por meio de “A ciência que sonha e o verso que investiga” cheguei ao livro “A Saga do Álcool”. Por meio deste cheguei à obra clássica de Sabino de Oliveira,  “Álcool Motor e Motores a Explosão” que pretendo resenhar neste blog.
Não tivesse Evandro Mirra publicado suas reflexões, eu não teria feito as duas viagens que fiz nem teria alargado meus horizontes. Cabe então recordar que publicar é para o intelectual uma tarefa mais ampla uma vez que, como expressou o Prof. Carlos Vogt “A cultura científica desenha uma espiral que se movimenta em quatro quadrantes. Seu ponto de partida é a produção e difusão da ciência entre os pares, função que envolve pesquisadores e o aparelho institucional de fomento e produção do conhecimento; se amplia para o ensino da ciência e formação de cientistas, envolvendo cientistas, professores e estudantes, desde o ensino fundamental até a pós-graduação; avança em direção do ensino para a ciência que tem como atores desde professores e diretores de museus até jovens estudantes, e completa um círculo com a divulgação científica, quando o conhecimento produzido reverbera para a sociedade como um todo antes de reiniciar o ciclo, cada vez mais estendido” .
Nesse caso (e talvez em todos!) a obra escrita desligou-se de seu autor e foi servir de bússola para um leitor curioso. Obrigado Evandro!
Amilton Sinatora
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Memorando Cosan-Shell: mais um passo na história do álcool motor no Brasil

19/02/2010

O memorando de entendimento firmado em 01-02-2010 entre a Cosan e a Shell visando a formação de uma joint venture para se “posicionarem em condições mais sólidas para crescimento e rentabilidade na área de biocombustíveis sustentáveis” é mais um passo na trajetória épica do uso do álcool como combustível no Brasil.

A Cosan tem capacidade de produção de 2 bilhões de litros de etanol por ano em 23 usinas, dispõe de uma rede de distribuição de 1.730 postos de combustível e, passados quase 100 anos, segue uma trajetória aberta por usineiros nordestinos no século passado.

Duas tentativas marcaram os primeiros passos da comercialização do álcool combustível. A USGA, combustível cuja elaboração foi iniciada na Usina Serra Grande em Alagoas, agregava ao etanol 20% de éter e 0,5% de óleo de rícino e foi comercializada em Pernambuco e Alagoas. Seu lançamento oficial em frente ao prédio do Diário de Pernambuco no centro do Recife inaugurou a “primeira bomba para comercialização de um combustível nacional em todo o Brasil” em 23 de junho de 1927. O Álcool-Motor Catende, desenvolvido na usina Catende em Pernambuco, alcançou, mais tarde, a preferência dos motoristas em todo o Nordeste, sendo exportado para estados de outras regiões do país.

Essas iniciativas não vingaram pois as circunstâncias econômicas não eram favoráveis e os obstáculos eram muito grandes. Um deles, a agressividade do álcool às parte metálicas dos motores, continua sendo um fator técnico a ser considerado ainda hoje. O outro, a oposição dos produtores de gasolina, na época representados pela Great Western Brazil Railway, parece não mais ser importante, como sugere o memorando firmado.

No início do século XX, os precursores com seus produtos de nomes pitorescos (Motogas, Nortina, Nacionalina, Motorina, Nog, Azulina, USGA e Álcool-motor Catende) não podiam sonhar com a abrangência de distribuição dos 1.730 postos da Cosan e os 2.740 da Shell. Abismados também ficariam os pioneiros de Minas Gerais que desenvolveram a Vigelina a partir de álcool de madeira se soubessem dos recursos da Iogen, empresa especializada na biotecnologia do etanol celulósico da qual a Shell detém 50% de participação e que faz parte do futuro negócio Cosan-Shell.

Que os novos tempos e novas formas de fazer negócios colaborem para o sucesso no emprego do álcool como forma de mitigar os efeitos nocivos do petróleo.

Amilton Sinatora

Referências


Álcool combustível no Brasil – Pesquisa no Nordeste e no Rio de Janeiro

02/02/2010
A predileção patriótica pelo alcool em relação ao petróleo manifestou-se no começo do século XX devido ao Congresso do Álcool de 1903, principalmente nos estados de Alagoas e Pernambuco. O álcool foi oficializado como combustível automobilístico nacional por decreto do governo de Pernambuco em 1919.
São bases para este clima pró-alcool o aumento de produção de açucar para suprir a Europa, cuja produção a partir da beterraba fora devastada na I Guerra Mudial, o que ocasionou excesso de produção de álcool no Nordeste; o sentimento anti-inglês decorrente do assassinado de Delmiro Gouveia na cidade de Pedra em Alagoas em 10 de outubro de 1919, associado à empresa inglesa Machine Cottons, e as contas externas deficitárias em parte devido à importação de combustível (gasolina).
O governo de Pernanbuco determinou em 1919 que os (poucos) veículos públicos empregassem álcool de cana de açucar. Na presidência do paraíbano Epitácio Pessoa (1919 – 1922), os professores Aníbal R. Mattos e José Julio Rodrigues, do curso de Química Industrial de Recife, desenvolveram e testaram uma mistura a base de álcool e éter que batizaram de Motogás.  Em 22 de dezembro de 1921 foi fundada a Estação Experimental de Combustíveis e Minérios do Ministério da Agricultura, liderada pelo engenheiro Ernesto Lopes da Fonseca Costa, na então capital federal.
É interessante observar a atualidade das funções daquela repartição: “… investigar e divulgar os melhores processos industriais e o aproveitamento dos combustíveis e minérios do país”;  “estudar o enriquecimento de combustíveis, métodos de queima e aproveitamento, destilação de xistos betuminosos, utilização de combustívies na siderurgia, aproveitamento de minérios de ferro, aproveitamento de materias para fabricação de cimentos, utilização de produtos nacionais na fabricação de refratários”. Quem conhece os planos de apoio à pesquisa vigentes nesta primeira década do século XXI nota que a agenda permanece, feliz ou infelizmente, atual.
O encarregado de “pesquisar a fundo o uso do álcool no desempenho dos motores  a explosão” foi Heraldo de Souza Mattos, liderando a equipe formada por Moraes Rego, Paulo Accioly de Sá, Silvio Fróes de Abreu, Anibal Pindo de Souza, Thomas Legall (inglês) e Eduardo Sabino de Oliveira,  jovem engenheiro formado pela Escola Politécnica de São Paulo.
No governo do mineiro Artur Bernardes (1922-1926) testou-se o uso do álcool de batata doce no trajeto parque do Trianon (na Avenida Paulista) –  alto da Mooca (então região idustrial da cidade de São Paulo) por Luiz Pereira Barreto (1922). Em 1923 a equipe da Estação Experimental inscreveu no Primeiro Grande Prêmio da Gávea um Ford que percorreu 230km da prova consumindo 20l de álcool a cada 100km. Os competidores referiam-se ao combustível não como álcool mas como cachaça produzida em Parati. Segundo os dados sobre o combustível (26,9 Cartier ou 70,9 G.L.), deveria ser uma cachaça extremamente forte diante das atuais que têm aproximadamente 40 G.L.
Em 23 de novembro de 1925 na então Escola Polytechnica do Rio de Janeiro (atual Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro) transcorreu a apresentação pública dos resultados das pesquisas realizadas na Estação de Combustíveis.  A conferência proferida pelo engenheiro Ernesto Lopes da Fonseca Costa, diretor da Estação, deve ter sido o primeiro encontro científico documentado sobre o uso do álcool em motores de combustão interna no país.
Amilton Sinatora
Referência.
“A saga do álcool” J. Natale Netto (Editora. Novo Século 2007) Capítulo 4 pp 61 – 82 Ações nacionalistas, em marcha.

Álcool combustível no Brasil – primeiros passos

27/01/2010
A discussão sobre os efeitos do álcool nos motores de combustão interna e o envolvimento da comunidade científica no assunto inspiram a busca pelo que já foi feito pelos que nos antecederam. O livro “A saga do álcool” do jornalista J. Natale Netto (Editora. Novo Século 2007 343pp.) traz informações muito interessantes que resumo a seguir.
No final do século XIX, os carros (desde o Peugeot de Alberto Santos Dumont, o primeiro veículo importado em 1891) eram propelidos a álcool. Em 1903, na frota da capital federal (Rio de Janeiro), que incluía além do Peugeot, um Dacauville licenciado por Fernado Guerra Durval, mais seis veículos empregavam apenas alcool como  combustível!
O crescente uso de derivados de petróleo na iluminação e nos motores não impediu que o  presidente Rodrigues Alvez e o presidente da Sociedade Nacional de Agricultura – Antonino Fialho, que  acompanhava a tecnologia da época em decorrências de viagens pela Europa – fossem defensores do uso do ácool combustível, o qual consideravam um “produto limpo” diferentemente do querosene e do óleo de baleia.
Dois outros fatores foram importantes para o apoio ao uso do álcool como combustível. Os preços daqueles combutíves importados (com reflexos nas contas públicas) e a crise pela qual passava a indústria açucareira nacional.
As demandas pela substituição do querosene “importado do estrangeiro a bom dinheiro e que não tem as mesmas vantagens de higiene, duração e economia do álcool produzido em nossos engenhos” confluiram para a realização de uma exposição internacional de equipamentos nos quais o álcool poderia ser utilizado e do I Congresso das Aplicações Industriais do Álcool na então capital da república, em 18 de outubro de 1903. No evento foi realizada uma demonstração do uso do álcool nos automóveis.
Da exposição e do congresso decorreram recomendações ao governo para que as repartições públicas usassem álcool na geração de calor e na iluminação. A Marinha se comprometeu a aplicar este combustível na iluminação dos faróis da costa brasileira. Desenvolveu-se uma ampla campanha na imprensa pelo uso do “combustível iluminante, calorífico e motriz” e o clero instruiu aos seus seminários a inclusão de uma cadeira de Economia Rural no bojo da qual fosse vulgarizada as aplicações do álcool como combustível!
Para o Brasil, foi a primeira oportunidade (perdida!) para diminuir suas dívidas internacionas e desenvolver seu próprio comburente, uma vez que o uso do querosene somente se expandiu quando, apartir de 1912 passou a ser distribuido em tambores.
Amilton Sinatora
Referência
Os primeiros passos do alcool em nossa história, em “A saga do álcool”, J. Natale Netto (Editora. Novo Século 2007). Capítulo 3, páginas 47 a 59.

Efeito do uso do álcool combustível nas válvulas dos motores

02/10/2009
Efeito do uso do álcool combustível nas válvulas dos motores.
Todos os que estudam tribologia, em especial os pesquisadores preocupados com tribologia de motores, precisam estudar na edição de setembro de 2009 da revista Quatro Rodas a matéria do jornalista Péricles Malheiro. Ele acompanhou a  desmontagem do motor do Punto ELX 1.4 da FIAT.
A reportagem trás resultados muito interessantes sobre o efeito do álcool nos componentes automotivos. Após 60 mil quilômetros a carroceria, os anéis sincronizados e a região de contato dos garfos seletores de marcha com as luvas estavam ?intactos? revelando a boa saúde do veículo nestes componentes que destacamos não entram em contato com o álcool combustível.
Os usuários havia detectado um aumento do consumo urbano e rodoviário que teve aumentos de 5,6 e 17,8 % , respectivamente. Uma análise do motor mostrou que a pressão nos quatro cilindros era de 196,6; 113,3; 180 e novamente, 180 psi, indicando que algo não estava bem nos cilindros 2, 3 e 4.
O estudo do motor mostrou que o cabeçote mostrava sinais de escorregamento de óleo pelas válvulas que chegou a contaminar a câmara de combustão e o cilindro 2 era o com dano mais intenso. A reportagem explica que este dano pode ter decorrido da perda de eficiência dos retentores que trabalham em contato com o lubrificante devido a desgaste ou uso de combustíveis adulterados.
Devido ao interesse nos motores a álcool por seu positivo impacto ambiental, esta reportagem mostra que se deve pesquisar o desgaste associado ao uso do álcool. Estes estudos ganham importância diante da eminente elevação da pressão específica dos motores, ou seja, a elevação das forças e das temperaturas nos motores para reduzir seu tamanho e seu consumo.
Amilton Sinatora 18-09-09

Todos os que estudam tribologia, em especial os pesquisadores preocupados com tribologia de motores, precisam estudar na edição de setembro de 2009 da revista Quatro Rodas a matéria do jornalista Péricles Malheiro. Ele acompanhou a  desmontagem do motor do Punto ELX 1.4 da FIAT.

A reportagem traz resultados muito interessantes sobre o efeito do álcool nos componentes automotivos. Após 60 mil quilômetros, a carroceria, os anéis sincronizados e a região de contato dos garfos seletores de marcha com as luvas estavam intactos revelando a boa saúde do veículo nestes componentes que, destacamos, não entram em contato com o álcool combustível.

Os usuários haviam detectado um aumento do consumo urbano e rodoviário de 5,6 e 17,8 % , respectivamente. Uma análise do motor mostrou que a pressão nos quatro cilindros era de 196,6; 113,3; 180 e novamente, 180 psi, indicando que algo não estava bem nos cilindros 2, 3 e 4.

O estudo do motor mostrou que o cabeçote tinha sinais de escorregamento de óleo pelas válvulas, chegando a contaminar a câmara de combustão, e o cilindro 2 era o que apresentava dano mais intenso. A reportagem explica que este dano pode ter decorrido da perda de eficiência dos retentores que trabalham em contato com o lubrificante devido a desgaste ou uso de combustíveis adulterados.

Devido ao interesse nos motores a álcool por seu baixo impacto ambiental, esta reportagem mostra que se deve pesquisar o desgaste associado ao uso do álcool. Estes estudos ganham importância diante da eminente elevação da pressão específica dos motores, ou seja, a elevação das forças e das temperaturas nos motores para reduzir seu tamanho e seu consumo.

Amilton Sinatora