Imagem do mês de fevereiro. Entrevista com o autor.

23/02/2016

por Verónica Savignano

Nanobastões de ouro crescidos sobre nanotubo de carbono.

Nanobastões de ouro crescidos sobre nanotubo de carbono.

Carbono e ouro compõem a nanoestrutura que ilustra a página do mês de fevereiro do calendário do Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies. Carbono, no nanotubo (de poucos nanômetros de diâmetro), formado por uma série de folhas de grafeno enroladas, de um átomo de espessura cada uma. Ouro, nos nanobastões que parecem enfeitar o nanotubo.

O autor principal da imagem é Anderson Caires de Jesus, doutorando na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e microscopista do Centro de Microscopia dessa universidade, onde foi realizada a imagem usando um microscópio eletrônico de transmissão,

Em seu mestrado, Anderson, orientado pelo professor Luiz Orlando Ladeira, desenvolveu um método de síntese de nanoestruturas híbridas como a da imagem. Além disso, explorou uma de suas possíveis aplicações: usá-las como amplificadores de sinal na identificação de moléculas por meio da técnica de espectroscopia Raman. Partindo dessa possibilidade, Anderson e colaboradores deram mais um passo e desenvolveram nanossensores que detectam compostos químicos e estruturas biológicas, podendo ser usados para diagnóstico médico ou veterinário e para análises químicas. O trabalho já gerou 4 pedidos de patente, além de artigos publicados em periódicos indexados internacionais, e um projeto de empresa spin-off, em busca de investimentos.

Em entrevista a nosso boletim, Anderson Caires explica brevemente como fabricou as nanoestruturas de carbono e ouro e conta mais sobre as aplicações desenvolvidas.

Boletim Engenharia de Superfícies: – Como foi fabricado o “tubinho enfeitado” da imagem do calendário? Por que nanobastões e nanotubo grudam?

Anderson Caires: – Esta imagem mostra nanobastões de ouro crescidos sobre a superfície de nanotubos de carbono. Neste projeto, desenvolvemos um novo processo de síntese de nanoestruturas hibridas, entre nanomateriais de carbono e nanoestruturas de ouro. O processo começa com a redução química de uma solução aquosa de um sal de ouro na presença de materiais de carbono, isso provoca o crescimento de pequenas nanopartículas de ouro em regiões ativamente funcionalizadas dos nanotubos de carbono de paredes múltiplas. Essa solução é então submetida a um processo fotoquímico com irradiação de luz ultravioleta. A ação da luz provoca diversas reações químicas que atuam para promover o crescimento in situ de nanobastões de ouro, utilizando as nanopartículas crescidas pela redução química como base. Podemos controlar a morfologia através da adição de surfactantes. Como o crescimento acontece in situ, os nanobastões ficam fortemente aderidos na superfície dos nanotubos de carbono.

A imagem foi realizada usando um microscópio eletrônico de transmissão (MET) Tecnai de 200 KV, instalado no Centro de Microscopia da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG.

Boletim Engenharia de Superfícies: – Conte-nos um pouco sobre o contexto em que foi realizada a imagem: o projeto no qual se insere, os resultados obtidos nesse projeto etc.

Anderson Caires: – Esta imagem é referente ao meu trabalho de mestrado intitulado “Desenvolvimento de nanomateriais e nanocompósitos para aplicação em detecção química e biológica por espalhamento de luz”. Neste trabalho, eu estou desenvolvendo nanocompósitos entre nanomateriais de carbono (nanotubos de carbono e óxido de grafeno) e nanopartículas de ouro anisotrópicas. Estamos aplicando estes materiais para detecção química e biológica através de espalhamento de luz, utilizando principalmente a técnica de espectroscopia Raman. Na espectroscopia Raman, uma impressão digital molecular pode ser identificada pelo espectro vibracional da molécula em estudo. Porém, o sinal Raman de diversas moléculas é muito fraco, sendo de difícil detecção em medidas convencionais. Assim, um efeito especial, chamado efeito SERS (surface-enhanced Raman spectroscopy), está sendo muito estudado nos últimos anos. Resumidamente, este efeito é uma amplificação do sinal Raman através da interação entre as moléculas em estudo e nanopartículas metálicas. Este material é ótimo para esse tipo de medida por que os nanotubos servem de template para os nanobastões, aumentando a interação entre eles, e ainda aumentando a superfície de absorção para as moléculas. Estamos desenvolvendo sistemas de detecção de compostos químicos para diversas aplicações baseadas neste processo. Durante este projeto publicamos dois artigos em revistas internacionais e temos um terceiro submetido; além disto, depositamos quatro pedidos de patente para o processo e produto. O artigo que trata em particular do trabalho que originou a imagem premiada, pode ser encontrado na referência abaixo. Nossa principal fonte de financiamento são as agências de fomento (CNPq, CAPES e FAPEMIG) através de bolsas e projetos de pesquisa.

Referência: A.J. Caires et al; Highly sensitive and simple SERS substrate based on photochemically generated carbon nanotubes/gold nanorods hybrids, Journal of Colloid and Interface Science, 455 (2015), 78–82. doi:10.1016/j.jcis.2015.04.071

Boletim Engenharia de Superfícies: – Comente quais são as aplicações dos nanobastões de ouro crescidos sobre nanotubos de carbono. São todas aplicações potenciais ou alguma já existe na sociedade fora do laboratório?

Anderson Caires: – Estamos aplicando este material como nanosensor para detecção de compostos químicos e estruturas biológicas, direcionados para o setor de análise química e diagnóstico médico/veterinário in vitro. Como o processo é simples e proporciona grande amplificação de sinal, foi possível desenvolver um sistema de detecção mais eficaz, sensível e barato que as tecnologias atualmente disponíveis no mercado. Isso é possível porque através da interação entre este material e as moléculas em estudo, podemos identificar uma assinatura molecular especifica de cada molécula, e em baixíssimas concentrações, da ordem de nanomolar ou até mesmo mais diluídas. Estamos buscando financiamento para criação de uma empresa focada nestes novos materiais e em sua produção comercial.

foto anderson

Anderson Caires

Boletim Engenharia de Superfícies: – Gostaria de agradecer alguém que tenha participado da realização da imagem vencedora?

Anderson Caires: – Gostaria de agradecer a toda a equipe do laboratório de nanomateriais do departamento de física da UFMG, e à equipe do Centro de Microscopia da UFMG.

Para entrar em contato com Anderson:

E-mail: andersoncaires@outlook.com. Linkedin: https://br.linkedin.com/in/andersoncaires

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Imagem do mês de janeiro. Entrevista com o autor.

27/01/2016

por Verónica Savignano

Imagem MEV de MOF obtido via microondas.

Imagem MEV de MOF obtido via microondas.

Na página do primeiro mês de 2016, o calendário do Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies exibe um conjunto de estruturas micrométricas arredondadas, cuja superfície apresenta um relevo acidentado, responsável por sua relativamente grande área superficial. Aguçando um pouco a vista, conseguimos distinguir que as estruturas são feitas de um material poroso.

O nome científico de cada uma destas bolinhas rugosas é MOF, de “metal-organic framework”. As MOFs da imagem são compostas por íons de elementos metálicos, no centro, ligados a moléculas orgânicas ao redor. A repetição dessas estruturas rígidas tridimensionais forma uma rede de átomos ordenada – por isso as MOFs são materiais cristalinos.

A imagem foi realizada usando um microscópio eletrônico de varredura (MEV) do Laboratório de Química de Materiais e Sensores (LMSEN) da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Segue uma entrevista com o autor da imagem, Bill Nishar Safadi, 20 anos, estudante do curso de graduação em Química da UEM, no Estado de Paraná.

Boletim Engenharia de Superfícies: – As estruturas MOF da imagem foram sintetizadas pensando em uma aplicação, não é mesmo? Conte-nos um pouco qual seria essa aplicação e qual seria sua importância social/econômica/ecológica.

Bill Safadi: – Esta classe de materiais é munida de elevada área específica, volume de poro elevado e estrutura flexível, o que torna o material altamente poroso. Estas importantes características proporcionam um grande potencial de aplicação para estes materiais. No que tange sua aplicação pode-se citar: armazenamento de gás, separação, sensoriamento químico, transporte de fármacos, aplicações em catálise heterogênea, entre muitas outras. Diante do potencial apresentado pelo material, pensou-se no emprego do material na adsorção de dióxido de carbono (CO2). Salienta-se que, na literatura, é visível o crescente número de tecnologias desenvolvidas para esta finalidade, pois existe uma preocupação global na diminuição das emissões de CO2. De acordo com a necessidade de diminuir a quantidade de CO2, a proposta foi desenvolver um material oriundo de fontes alternativas e aplicar esse material com apelo ambiental, visando minimizar a quantidade desse e outros gases presentes na atmosfera. Salienta-se ainda que o grande diferencial das MOFs é que estes materiais precisam de pouca energia para recuperar o CO2 capturado e aplica-lo em seu reuso. É digno de nota que o projeto para a síntese e aplicação destes materiais ostenta importância sócio/econômica e ambiental além de formação de recursos humanos altamente qualificados na área.

Boletim Engenharia de Superfícies: – Agora conte-nos um pouco sobre o contexto em que foi realizada esta imagem.

Bill Safadi: – A micrografia premiada é referente ao meu projeto PIBITI intitulado “Desenvolvimento de estruturas metal orgânicas (MOF) para aplicação em captura e armazenamento de hidrogênio e dióxido de carbono’, realizado no período de 01/08/2014 a 31/07/2015. No entanto, já trabalho na síntese de materiais porosos desde o meu primeiro ano de graduação no Laboratório de Química de Materiais e Sensores (LMSEN) da UEM. Juntamente com os demais membros do grupo, buscamos realizar um estudo sistemático do processo de síntese de MOFs que por sua vez são obtidas a partir de diferentes metais, diferentes métodos e diferentes fontes. Além disso, o desenvolvimento de novas MOFs com a utilização de ligantes orgânicos específicos. Como é uma área com elevado potencial de aplicação, o grupo também conta com uma relevante colaboração com renomados pesquisadores estrangeiros, para o desenvolvimento de projetos em parceria. No que tange ao financiamento, o projeto é financiado pela Fundação Araucária/PR (Processo: 830/2013).

Boletim Engenharia de Superfícies: – Gostaria de agradecer alguém que tenha participado da realização da imagem vencedora?

Bill Safadi: – Gostaria de agradecer principalmente o meu orientador Prof. Dr. Andrelson Wellington Rinaldi – DQI/UEM, pelo auxílio e suporte em todas as etapas do projeto, o doutorando Cleiser Thiago Pereira da Silva – PQU/UEM e o professor Dr. Murilo Pereira Moisés – UTFPR/Campus Apucarana, que me auxiliaram em todas as atividades do laboratório, assim como nas análises de dados. Também agradeço os demais colegas do grupo de pesquisa que são meus colaboradores e que muito me ajudaram durante a execução deste projeto, uma vez que este trabalho não é fruto de um esforço individual, e sim um trabalho de um grupo. Agradeço também ao CNPq pela minha bolsa de Iniciação Científica Tecnológica, a Fundação Araucária/PR pelo suporte financeiro, ao COMCAP da UEM e ao Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies pela oportunidade de concorrer com nossa imagem.

Grupo do LMSEN - UEM

Grupo do LMSEN – UEM

Para entrar em contanto com Bill: billsafadi@gmail.com


Imagem do mês de outubro: minientrevista com o autor.

20/10/2014

imagem outubroEstrela para uns, flor ou carambola para outros, o objeto da imagem que ilustra a página de outubro do calendário do Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies é, na verdade, um cluster de partículas de fosfato de cálcio de algumas dezenas de micrometros. A imagem foi obtida por microscopia eletrônica de varredura (MEV) na Central de Microscopia Eletrônica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O belo conjunto de partículas foi sintetizado pelo método de condensação iônica, no contexto de uma pesquisa que desenvolveu um curativo feito com uma membrana de látex com partículas de fosfato de cálcio incorporadas. O curativo ajudaria à regeneração de tecido ósseo ao liberar paulatinamente o fosfato de cálcio.

O autor da imagem, Rodney Marcelo do Nascimento, 35 anos, é graduado em Licenciatura Plena em Física pela UNESP e mestre e doutor em Ciência e Tecnologia de Materiais, também pela UNESP. Desenvolveu trabalhos de pós-doutorado sobre superfícies funcionalizadas na UFSC (2012), UNESP – Rio Claro (2013) e USP – São Carlos (2014). Atualmente é pesquisador científico do Institut Lumière Matière, na França.

Segue uma breve entrevista com Rodney.

1. Conte-nos sobre o contexto em que foi realizada a imagem.

A imagem está dentre algumas obtidas por MEV para avaliar a morfologia das partículas processadas por diferentes tratamentos físico-químicos. Uma parte da metodologia utilizada foi aproveitada dos trabalhos de doutorado; na época recentemente defendido (2011). O avanço e os desdobramentos da pesquisa resultaram em um projeto de pós- doutorado, realizado na UFSC  em colaboração com a UNESP e a USP. O projeto, no qual fui contemplado com uma bolsa de pesquisa PNPD, foi inteiramente financiado pela CAPES e CNPq.

2. Você esperava ver partículas com o formato que aparece na imagem vencedora ou foi uma surpresa?

Foi possível obter diferentes formatos e tamanhos de partículas, isoladas e em clusters, que variavam a partir da modificação de concentração de reagentes químicos, assim como dos tratamentos térmicos, mas o formato de estrela foi uma surpresa.

3. O belo cluster de partículas da imagem vencedora teve um bom desempenho no contexto da pesquisa?

Embora o formato estelar tenha chamado a atenção, outras partículas menos “charmosas” foram mais eficazes no processo de incorporação na rede polimérica. Os últimos resultados foram publicados recentemente na revista Materials Science and Engineering: C , Volume 39, 1 June 2014, Pages 29-34. O artigo descreve com mais exatidão os caminhos que levaram ao encapsulamento das partículas de fosfato de cálcio  pelas proteínas do látex. As próximas etapas da pesquisa consistem em testar o material em fluido corporal e estudar as interações físico-químicas a partir da molhabilidade da superfície. Como última etapa, iniciar os estudos com células (in vitro/vivo).

4. Conte- nos um pouco mais sobre a ideia do curativo.

A ideia do curativo consiste em se obter um material final com três funcionalidades: 1) isolar o ferimento (mecânico); 2) estimular a regeneração de tecidos (biocompatível); 3) carrear partículas de fosfato de cálcio. Dentro dessa proposta, a aplicabilidade deve ser na regeneração de tecido ósseo.

5. Gostaria de agradecer alguém que tenha ajudado na realização da imagem vencedora?

Agradeço aos órgãos de pesquisa que financiaram o projeto, a todos do suporte técnico, aos coautores Ivan Bechtold, Francisco Guimarães,  Aldo Job, Deuber Agostini e um agradecimento especial ao Fabricio Faita.

Para contatar o Rodney: rodney@fc.unesp.br


Laboratório de Pesquisas Fotovoltaicas da Unicamp – células solares de silício com tecnologia 100% brasileira.

24/09/2014

O Laboratório de Pesquisas Fotovoltaicas (LPF) do Instituto de Física da UNICAMP foi fundado no início da década de 1980. Desde então, tem feito importantes contribuições ao desenvolvimento de dispositivos fotovoltaicos – aqueles que transformam energia luminosa em energia elétrica, como os painéis solares. Entre os resultados dessa linha de pesquisa, destacam-se os seguintes:

Laboratório de fabricação de células solares de silício.

Laboratório de fabricação de células solares de silício.

– Células solares de silício monocristalino com eficiência de até 16%.

– Células solares de silício policristalino de 13% de eficiência.

– As primeiras células solares de silício amorfo da América Latina com eficiência de 7%.

– Células com estrutura semicondutor-isolante-semicondutor de 13 % de eficiência.

– Células solares de 13 % de eficiência, fabricadas a partir do silício metalúrgico nacional, em cooperação com a Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp (professor Paulo Mei) com colaboração da empresa brasileira RIMA S.A.

– Células solares de corante (Gratzel) de 7,5% de eficiência, desenvolvidas em colaboração com o Instituto de Química da Unicamp.

O aperfeiçoamento das células solares, na busca por melhor eficiência, menor preço, menor tamanho e maior segurança ambiental, passa pela pesquisa de novos materiais fotovoltaicos e novos revestimentos antirrefletores, entre outros temas. O grupo age nesse tipo de investigação e estuda propriedades optoeletrônicas, estruturais e termomecânicas desses novos materiais para aplicação nas células solares e também em outros dispositivos eletrônicos.

Sistema de Deposição por Camada Atômica (ALD - Atomic Layer Deposition).

Sistema de Deposição por Camada Atômica (ALD – Atomic Layer Deposition).

Atualmente, o laboratório está trabalhando no desenvolvimento de nanopartículas metálicas para aplicação do efeito plasmônico (excitação coletiva de elétrons) em células solares. A ideia é utilizar as nanopartículas em células solares e verificar se o efeito plasmônico se manifesta aumentando a eficiência quântica na região do infravermelho. Para o desenvolvimento das nanopartículas, estão sendo utilizadas as técnicas de sputtering e ablação a laser. A caracterização das nanopartículas é realizada com AFM, SEM, Raman e raios-X.

Laboratório de desenvolvimento de filmes finos. Na frente, o FCVA para desenvolvimento de DLC. No fundo, sistema PECVD.

Laboratório de desenvolvimento de filmes finos. Na frente, o FCVA para desenvolvimento de DLC. No fundo, sistema PECVD.

O grupo também está investindo no desenvolvimento e estudo de filmes ultrafinos (de poucos átomos de espessura), depositados pela técnica ALD (atomic layer deposition), que está em fase de implantação no laboratório e que será utilizada no recobrimento das nanopartículas plasmônicas e em outros trabalhos.

Outra linha importante do grupo é o desenvolvimento de materiais duros para revestimentos com propriedades mecânicas e tribológicas otimizadas para aplicações da indústria metal-mecânica. Para isso, o grupo utiliza várias técnicas de preparação de materiais como RF Sputtering, PECVD (plasma enhanced chemical vapor deposition); FCVA (filtered cathodic vacuum arc), electron-beam; spray químico, IBAD (ion beam assisted deposition).

Sistema DIBAD (Dual Ion Beam Assisted Deposition). As duas fontes de íons são canhões do tipo Kaufman.

Sistema DIBAD (Dual Ion Beam Assisted Deposition).

Além de suas atividades de pesquisa acadêmica, algumas delas, desenvolvidas em cooperação com a indústria, este grupo já gerou uma empresa spinoff, a Plasma-LIITS, também associada ao Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies. A empresa atua no mercado desde 2004 no desenvolvimento, fabricação e comercialização de instrumentos científicos, equipamentos e processos para tratamentos de superfície por plasma.

 

Minientrevista com o coordenador da equipe do LPF no Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies, professor Francisco das Chagas Marques.

IMG-20140818-WA0008Professor associado do Instituto de Física Gleb Wataghin, na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Francisco das Chagas Marques é bacharel em Física pela Universidade Federal do Ceará (1981), e mestre (1984) e doutor (1989) em Física pela UNICAMP. Fez pós-doutorado na Harvard University e na University of Utah, nos Estados Unidos, e naCommonwealth Scientific and Industrial Research Organisation, na Austrália. É autor de cerca de 90 artigos científicos publicados em revistas internacionais arbitradas e de uma patente concedida, pela qual lhe foi outorgado o Prêmio Inventores Unicamp 2014.

1. Quais foram, na sua avaliação, as principais ações realizadas e/ou resultados conseguidos e/ou colaborações desenvolvidas por seu grupo no contexto do nosso INCT?

Durante o período de atividade do Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies realizamos diversos estudos.  Entre eles, podemos destacar:

– Desenvolvimento de carbono tipo diamante de alta dureza pela técnica FCVA (filtered cathodic vacuum arc).

– Purificação do silício metalúrgico nacional de 98-99% para 99.9993% e fabricação de células solares de 13 % de eficiência. Este resultado representa a primeira vez em que células solares de silício são fabricadas com alta eficiência com tecnologia 100% brasileira, desde o quartzo, passando pela transformação em silício metalúrgico, seguido de purificação do silício, fabricação de lâminas e, finalmente, das células solares. Este trabalho foi realizado em cooperação com a Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp (professor Paulo Mei) e contou com a colaboração da empresa nacional Rima S.A.

2. Escolha os melhores artigos científicos publicados por seu grupo no contexto do Instituto (uns 3 artigos, aproximadamente).

  1. S. da Silva, A. D. S. Côrtes, M. H. Oliveira Jr., E. F. Motta, G. A. Viana, P. R. Mei and F. C. Marques. “Application of amorphous carbon based materials as antireflective coatings on crystalline silicon solar cells”. J. Appl. Physics, 110(4), 043510-043510-8 (2011). DOI: 10.1063/1.3622515.
  2. F.C. Marques, G.A. Viana, E.F. Motta, D.S. Silva, D. Wisnivesky, A.D.S. Côrtes, and M.R. Aguiar. “Argon Implantation in Tetrahedral Amorphous Carbon Deposited by Filtered Cathodic Vacuum Arc”. Journal of Materials Engineering and Performance, 22(5) 1396-1404 (2012). DOI: 10.1007/s11665-012-0401-2
  3. Droppa, Jr., H.C. Pinto, J. Garcia, E.A. Ochoa, M. Morales, S. Cucattti , F. Alvarez. “Influence of ion-beam bombardment on the physical properties of 100Cr6 steel”. Materials Chemistry and Physics, v. 34, p. 1-8 (2014). DOI: 10.1016/j.matchemphys.2014.04.016.
  4. A.D. S. Côrtes, D. S. Silva, G. A. Viana, E. F. Motta, P. R. Zampieri, P. R. Mei and F. C. Marques. “Solar cells from upgraded metallurgical-grade silicon purified by metallurgical routes”. Journal of Renewable and Sustainable Energy, 5, 023129  (2013) (9 pages). http://link.aip.org/link/doi/ 10.1063/1.4800200

3. Comente os pontos positivos de ser um participante do nosso Instituto.

O trabalho em rede tem vários pontos positivos. Em nosso projeto Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies destaco a organização de eventos científicos, que têm sido realizados em simpósios nos encontros da SBPMat. Outra função importante do Instituto tem sido a distribuição de bolsas dentro do projeto a partir de uma cota geral da equipe como um todo onde é considerado o mérito das solicitações. Destaco também as parcerias que são desenvolvidas entre os laboratórios e os mecanismos de divulgação dos trabalhos do INCT realizado no Boletim Engenharia de Superfícies, que dá visibilidade aos nossos trabalhos não apenas no meio acadêmico, mas também para a sociedade.

 


Internacionalização da pesquisa, via de mão dupla

29/09/2010

"Há, de um lado, abundância de doutores e, ao mesmo tempo, escassez de mão de obra especializada, especialmente engenheiros."

Duas matérias da revista FAPESP de setembro tratam da internacionalização de centros de P&D  e apresentam dados importantes para orientar nossa atuação enquanto formadores de pesquisadores talentosos.

Centros de P&D de multinacionais no Brasil
O estudo da instalação no Brasil de “amplos laboratórios multinacionais que têm o objetivo de gerar conhecimento e desenvolver tecnologia para produtos invadores destinados ao mercado ou a clientes específicos” foi objeto de um projeto de pesquisa coordenado pelo pesquisador Sérgio Robles Reis de Queiroz.
O principal fator de atração das empresas é também a principal dificuldade apontada para a instalação dos centros de P&D no país: a mão de obra. Há, de um lado, abundância de doutores e, ao mesmo tempo, escassez de mão de obra especializada, “especialmente engenheiros”. No quesito “formação de engenheiros”, a reportagem destaca que apenas 5% dos egressos da graduação no Brasil são engenheiros, contra 25% na Coréia do Sul.
Os quatro principais fatores de atração dos centros de P&D, além da mão de obra, são o baixo custo, o ambiente e a estrutura de P&D do país e a necessidade de atender e adaptar produtos para o mercado e especificidades regionais do Brasil. Entretanto, na minha opinião, as razões econômicas, como não poderia deixar de ser, são as que orientam a vinda destes laboratórios para o país.
Na contramão, as quatro principais barreiras para a instalação dos centros de pesquisa no país são: as dificuldades para a importação, custo e burocracia, a instabilidade das políticas e questões regulatórias,  dificuldades internas às próprias empresas e barreiras à cooperação com universidades e centros de pesquisa. Destes fatores, cabe aqui explorar melhor as dificuldades internas às próprias empresas.
No longo caminho de cooperação com empresas que trilhamos no Laboratório de Fenômenos de Superfície, temos vivenciado o que cremos serem aspectos destas dificuldades internas às empresas. A dissociação entre matriz e filial; a disputa por áreas de influência; o naturalmente complexo alinhamento entre a área de P&D e as áreas de compras, contratos, marketing, RH e outras; as questões de sigilo; as diferenças culturais entre países; a prevalência de uma cultura intolerante ao erro; a ausência de um contexto capacitante e solidário são alguns fatores que temos apontado aos dirigentes das empresas como suscetíveis de melhora para otimizar os resultados das atividades de P&D.
Para finalizar este resumo, a matéria informa que o montante investido no Brasil em P&D por empresas norte-americanas foi de U$S 1,9 bilhão  no período 2002 – 2006, muito pouco considerando que elas investiram em outros 15 países mais de U$S 100 bilhões com valores que vão de 26,4 bilhões no Reino Unido a de 2,2 bilhões na Holanda – país logo acima do Brasil na lista de investimentos.
Centros de P & D de empresas multinacionais brasileiras no exterior
A “possibilidade de ter acesso a recursos tecnológicos inexistentes ou de dificil aquisição no Brasil”  e a “aquisição de uma subsidiária estrangeira possuidora de uma área de P & D” são razões para que as empresas brasileiras desenvolvam ações de P&D em solo estrangeiro. Estas constatações foram mapeadas em um projeto temático FAPESP coordenado pelo pesquisador Afonso Carlos Fleury. O estudo mostra ainda que a mão de obra especializada e a necessidade de atender normas específicas de um dado mercado também são razões importantes para as empresas brasileiras.
Há, como não poderia deixar de ser, uma simetria entre os dois estudos, uma vez que a razão última que move as empresas é a mesma e, de modo geral, as empresas copiam umas às outras, visando sincronizar seus movimentos de modo a não se distanciarem de seus concorrentes em caso de grandes mudanças no ambiente econômico.
O aspecto de “atender às necessidades de adequação” de um dado mercado se explica pela necessidade de certificação, que exigiria, caso o centro de P&D fosse centralizado no Brasil, todo um conjunto extra de atividades de certificação/adaptação do produto para o mercado-fim. Com as atividades de desenvolvimento sendo feitas no mercado-fim, o processo se simplifica enormemente. Notamos que esta razão é simétrica da  “necessidade de atender e adaptar produtos para o mercado e especificidades regionais do Brasil” evidenciada no projeto anterior.
Uma  decorrência da leitura das duas reportagens é que o mercado em P&D  para nossos graduandos e pós-graduandos é grande e está em expansão. Além disso, ele tem o mundo como horizonte profissional – o que deve atrair mais intensamente os jovens com vocação e que ao mesmo tempo desejam ter uma perspectiva profissional global e desafiadora.
Cabe a nós, formadores de opinião deste seleto público, divulgar os resultados das pesquisas e aplainar as dificuldades deste amplo caminho que se materializa.
Amilton Sinatora
Fontes:
Investimento Emergente, Marcos Oliveira, Danilo Zamboni (ilustrações), Revista  FAPESP No 175, p. 16-20,  setembro de 2010.
Centros Multinacionais Brasileiros. Yuri Vasconcelos, Revista  FAPESP No 175, p. 21-23,  setembro de 2010.