Imagem do mês de março. Entrevista com a autora.

por Verónica Savignano

MEV de nanofolhas de Cu(OH)2 crescido sobre lâmina de cobre.

MEV de nanofolhas de Cu(OH)2 crescido sobre lâmina de cobre.

Grama crescida sobre um montículo de terra é o que sugere a imagem que ilustra a página de março do calendário do Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies. Todavia, a grama não é feita de grama, e sim de hidróxido de cobre (II), e suas folhas têm cerca de 37 nm de espessura e 2 ou 3 mm de comprimento. Por sua vez, a terra não é bem terra; trata-se de uma lâmina de cobre que foi forçada a se oxidar ao coloca-la em contato com uma solução aquosa contendo hidróxido de amônio e hidróxido de sódio. Depois de uma série de reações químicas consecutivas, formou-se o hidróxido de cobre (II) sobre a lâmina. Ou, em outras palavras, a grama cresceu sobre a terra.

Na imagem, a estrutura aparece aumentada 10 mil vezes por um microscópio eletrônico de varredura do Centro de Microscopia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e colorida digitalmente usando um editor de imagens.

A formação da nanograma de hidróxido de cobre (II) fez parte de um trabalho realizado em 2014, cujo objetivo era o desenvolvimento de um novo sensor eletroquímico (ou seja, baseado em reações de oxidação e redução) para detectar glicose.

A autora do trabalho, e da imagem, é Natália Goedtel Medeiros, aluna do mestrado em Química da UFRGS, onde também realizou o bacharelado em Química.

Segue uma breve entrevista com a autora.

Boletim Engenharia de Superfícies: –  Explique, pensando em um público amplo, de não especialistas, como se formou o hidróxido de cobre II que aparece na imagem do calendário.

Natália Goedtel Medeiros: – Uma lâmina de cobre foi deixada em contato com uma solução contendo hidróxido de amônia (NH4OH) e hidróxido de sódio (NaOH). Nesse meio ocorre a oxidação do metal cobre, Cu0  →  Cu+2 + 2e-. Os íons Cu+2 reagem com o NH3 formando um aminocomplexo, Cu +2 + 4NH3  →[Cu(NH3 )4 ] +2, o qual posteriormente forma o hidróxido de cobre (II) pela reação com o grupo hidroxila (-OH), [Cu(NH3 ) 4 ] +2 + 2  OH →Cu(OH) 2 + NH4 OH.

Boletim Engenharia de Superfícies: – Ainda pensando em um público de não especialistas, explique de que maneira essa nanoestrutura pode ser utilizada na detecção de glicose. E comente mais sobre essa aplicação: vocês têm algum dispositivo em mente (por exemplo, um medidor de glicose em sangue) para a nanoestrutura?

Natália Goedtel Medeiros: – As nanoestruturas de hidróxido de cobre (II) podem ser utilizadas como um sensor eletroquímico na detecção de glicose devido ao seu efeito eletrocatalítico, que permite que a glicose seja oxidada na superfície do eletrodo gerando uma quantidade de corrente que é proporcional à sua concentração. Desta forma, pode-se utilizar este eletrodo na confecção de um dispositivo similar ao glicosímetro. Todavia, as nanofolhas de hidróxido de cobre (II) não mostraram ser tão eficientes na oxidação da glicose quanto as nanoflores de óxido de cobre (II). Mas a sua formação permitiu elucidar o mecanismo de crescimento de nanoflores de óxido de cobre (II) que foi objeto de estudo como sensor de glicose. Os resultados deste último foram publicados recentemente no Journal of Solid State Electrochemistry.

Foto do grupo de pesquisa. Da esquerda para a direita, Vanessa (IC), professora Jacqueline Arguello (orientadora), Natália (mestranda) e Filomeno (doutorando).

Foto do grupo de pesquisa. Da esquerda para a direita, Vanessa (IC), professora Jacqueline Arguello (orientadora), Natália (mestranda) e Filomeno (doutorando).

Boletim Engenharia de Superfícies: – Conte sobre o contexto em que foi realizada a imagem.

Natália Goedtel Medeiros: – Esta imagem foi realizada durante o desenvolvimento do meu trabalho de conclusão do curso de Bacharelado em Química na UFRGS, o qual foi orientado pela Prof.ª Dra. Jacqueline Arguello da Silva e cujo título é “Síntese de nanoflores de óxido de cobre para sensor eletroquímico de glicose”. Neste trabalho, o objetivo era desenvolver um novo sensor eletroquímico não-enzimático para detecção de glicose através da formação de nanoestruturas sobre uma lâmina de cobre. A imagem gerada auxiliou na elucidação do mecanismo de crescimento das nanoestruturas do óxido de cobre (II), composto que é formado posteriormente ao hidróxido de cobre (II). As nanoflores de óxido de cobre (II) foram utilizadas como sensor eletroquímico não enzimático para detecção de glicose. Estes resultados geraram um artigo publicado, cuja referência pode ser conferida abaixo. As fontes de financiamento são as agências de fomento CNPQ (Processo: 550441/2012-3), INCTBio (CNPq/INCT 573672/2008-3), CAPES e Propesq/UFRGS através de bolsas e projetos de pesquisa.

Referência: N. G. Medeiros, V. C. Ribas, V. Lavayen ,J. Arguello Da Silva. Synthesis of flower-like CuO hierarchical nanostructures as an electrochemical platform for glucose sensing. Journal of Solid State Electrochemistry, DOI 10.1007/s10008-016-3163-1

Boletim Engenharia de Superfícies: – Gostaria de agradecer alguém que tenha participado da realização da imagem vencedora?

Natália Goedtel Medeiros: –  Gostaria de agradecer à minha orientadora Prof.ª Dra. Jacqueline Arguello da Silva, aos meus colegas do grupo de pesquisa do Laboratório de Nanomateriais para Aplicações Analíticas ou Biomédicas da UFRGS, ao Instituto de Química da UFRGS e ao Centro de Microscopia e Microanálise da UFRGS.

Para entrar em contato com Natália: nataliagoedtel@gmail.com.

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