Fornadas de engenheiros fora do ponto

BOA FORMAÇÃO de engenheiros: trabalho duro, tutoria, desafios, repetição.

Um editorial da Folha de São Paulo estima que os prejuízos com falhas de projetos em obras públicas é de 26.500.000.000,00 por ano. Sim, são 26,5 bilhões de reais perdidos por ano devido a erros de projeto. O editorial indica que devemos esperar pioras significativas, tanto pela enorme quantidade de obras necessárias para atingir as metas do PAC quanto pelo expressivo aumento da formação de engenheiros … à distância!

Sou forçado a endossar o pessimismo do editorial.

Nossas atividades em tribologia exigem cada vez mais que projetemos e construamos equipamentos para ensaios de desgaste e para estudo do atrito. As razões são duas. De um lado, o custo exorbitante dos equipamentos importados, exagerado pela falta de concorrência. De outro, a necessidade de conhecermos em detalhe a cadeia de medidas dos equipamentos, ou seja, não queremos caixas pretas nos equipamentos, pois isso atrapalha o entendimento dos fenômenos.

Cada projeto de um novo equipamento é um martírio. Nossos fornecedores de serviço, usinagem, montagem, instrumentação raramente nos entregam o que pedimos. As dificuldades são muito básicas, como a leitura incorreta de desenhos, a tomada de medidas em posições erradas, as medições erradas,  as usinagens inadequadas e as montagens que chegam a ser incompreensíveis.  Com isso, nossos prazos (e custos) se dilatam, e sempre há necessidade de retrabalho devido a erros.

Para enfrentar o problema, estabelecemos um procedimento de interação com nossos fornecedores de modo a contribuir para o aprendizado dos engenheiros e técnicos dessas empresas. Numa escala infinitamente maior, a Petrobras lançou o PROMINP (Programa de Mobilização da Industria Nacional de Petróleo e Gás Natural), por meio do qual luta contra a falta de engenheiros capacitados no país.

Certamente, formar engenheiros à distância não é a saída para melhorar a qualidade dos profissionais. A iniciativa atende a demanda premente de escolaridade, mas é incapaz de atender a demanda por educação de qualidade. A formação de profissionais que têm a obrigação de fazer certo requer tempo. Mais do que isso, requer tempo de trabalho duro. Requer repetição, enfrentamento de desafios, supervisão, tutoria, acompanhamento.

Essas demandas de supervisão, tutoria, acompanhamento expõem um outro lado da questão. Agora fica claro a estupidez da re-engenharia e da desmedida valorização da gestão (conhecimento fácil e barato, posto que disponível nas livrarias de rodoviárias e aeroportos) em detrimento do trabalhoso ensino da engenharia. Não existem engenheiros seniores (de verdade) em número suficiente para formar “on the job” os jovens. Fica, claro, tardia e infelizmente, o preço de décadas de ditadura seguidas de décadas de recessão coroadas pelo modismo da gestão.

E tome custos!

Amilton Sinatora

Referências

  • “Engenharia à distância”. Jornal Folha de São Paulo, 3 de fevereiro de 2011, Editoriais, página A2.

Uma resposta para Fornadas de engenheiros fora do ponto

  1. A gestão continua sendo tratada à base do “Gerenciamento Incidental”, isto é, acionada pela reação ao último evento presenciado ou, pior, “reportado”. Raramente vê-se alguém preocupado com tendências. Médio e Longo Prazo são ficções. Tudo fica condicionado às comparações do mês atual com o mesmo mês do ano anterior, quando não com o mês imediatamente anterior. Se a Gestão fosse levada a sério e não como mercado para livros de “auto-ajuda”, a demanda por profissionais de melhor formação já teria explodido há muito tempo.

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