Gênero e Tribologia

Garota cientista

Como aproveitar bem um feriado na quinta-feira e uma péssima viagem de avião Natal-Salvador-Belo Horizonte-São Paulo no sábado? A resposta é simples, basta ser convidado para proferir uma palestra em plena sexta-feira e nesta ganhar um bom livro para ler no avião.

Me explico.  O Grupo de Pesquisa em Gestão de CT&I e Desenvolvimento Sustentável no Nordeste ousadamente convidou-me para uma palestra sobre Parcerias Tecnológicas Universidade Empresa. Coordenada pelos professores Edilson da Silva Pedro e Efrain Pantaleón Matamorros, a palestra teve platéia cheia – para minha surpresa, confesso.  Para um pesquisador nada como fugir do frio de São Paulo e ter a casa cheia para um debate intenso e inteligente do qual tratarei oportunamente.
Ao final do debate fui presenteado pela jornalista Carla Giovana Cabral com um livro (ver abaixo) do qual ela é autora de um inteligente capítulo que trata da relação entre gênero e tecnologia e que serviu-me de refúgio pelo périplo de escalas de um voô infindável de volta ao inverno paulista.
No texto, a jornalista e professora da Escola de Ciências & Tecnologia da UFRN destaca entre outros aspectos importantes que o “número de mulheres na engenharia cresce, mas lentamente, e é ainda muito desigual em relação aos homens”. Ela mostra que segundo os dados mais recentes (2002) “a proporção feminina” havia chegado a 14%, perfil semelhante ao do México, Canadá e França. A porcentagem é pequena, porém expressiva diante do fato de que até 1924 haviam se formado 4 mulheres na Escola Politécnica do RJ; até 1945, 2 mulheres na Escola Politecnica da USP; 2 mulheres formadas até 1945 no Paraná, e  2 até 1950 na UFRGS!!
Quando o universo estudado foi o das instituições de pesquisa, encontrou-se entre o total dos pesquisadores 47% de mulheres, enquanto que no âmbito mais restrito da Engenharia e Ciência da Computação, este valor era de 25%, segundo os dados do censo do CNPq para 2004.
O cenário não é dos piores no que se refere à participação das mulheres,  mas quando o assunto é participação nas decisões de Ciência e Tecnologia verificou-se que “o espaço de decisão é predominantemente masculino” nas reitorias, pró e vice-reitorias, comitês assessores de ministérios do CNPq, da Capes e, até mesmo, nos comitês de Ciências Humanas. Ou seja, mesmo nas áreas onde são maioria as mulheres, elas não estavam em porcentagem expressiva nos postos de decisão.
Estas considerações requerem posições afirmativas e críticas para que homens e mulheres integrantes do sistema de pesquisa brasileiro não fiquem ingenuamente perpetuando esquemas mentais da revolução industrial. Entretanto, ao invés de embarcar pelo caminho do debate resolvi tentar contribuir com  um pequeno levantamento sobre o número de mulheres que concluíram pós graduação em tribologia no Laboratório de Fenômenos de Superfície, chegando aos seguintes dados.
TABELA

Orientadas LFS

Este primeiro levantamento mostra como no grupo, que se constituiu em 1995, as mulheres sempre estiveram entre os nossos orientados e que meu amigo, o Prof. Tanaka, talvez por ter três filhas, é quem por mais vezes orientou mulheres!!

Documentar e estudar com metodologia a participação das mulheres na tribologia brasileira certamente é uma atividade que aproximará mais ainda o Laboratório de Fenômenos de Superfície da Escola de Ciências & Tecnologia da UFRN, e esta de todos os grupos que estudam tribologia no Brasil.

O convite está feito!

Amilton Sinatora

Referência

Carla Giovana Cabral. Gênero, Ciência e Tecnologia, Cap. 12, pp.89-200. In Walter Antonio Bazzo; Luiz Teixeira do Vale Pereira; Irlan von Linsingen. Educação Tecnológica – Enfoques para o ensino da engenharia. Editora da UFSC. 2a. Ed. 2008. Editora da UFSC Florianópolis. 231p.

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