A pesquisa de primeira linha em tribologia

O estudo da tribologia ainda enfrenta limitações muito básicas como as apontadas em post anterior. Por exemplo, exceto com raras excessões, os tribologistas não conseguem construir modelos capazes de prever a vida de componentes nos quais o desgaste ou os valores de coeficiente de atrito são as grandezas determinantes para o seu uso.
O surgimento no Brasil de grupos de pesquisa voltados para a tribologia ou, ao menos, para a engenharia de superfícies é um passo positivo para superar aquela lacuna no conhecimento.
Entretanto, a formação destes grupos precisa enfrentar e superar algumas das características da pesquisa no terceiro mundo, como a inconstância no estudo de um tema e a pequena troca de experiências entre grupos. Estas questões parecem estar bem claras para a maioria dos pesquisadores com os quais tenho contato e devem, portanto, ser superadas em prazo curto, uma vez que as medidas são muito simples.
Outras questões, entretanto, são menos evidentes e são brilhantemente abordadas no livro Em busca da Memória. O autor, Eric R. Kandel recebeu o  Prêmio Nobel de Medicina em 2000 por seu trabalho na formação de memórias.
  • A mobilidade dos pesquisadores. Kandel estagiou em diferentes laboratórios e clínicas nos Estados Unidos e fez pós-doutorado na França, onde estagiou para aprender uma técnica específica que utilizou para seus estudos. No Brasil, em geral o pesquisador se forma, trabalha e se aposenta na mesma instituição.
  • O clima de trabalho. São saborosas as passagens do livro no qual o autor relata seu entusiasmo enquanto aluno com laboratórios nos quais era encorajado pelos mais velhos a buscar a resposta a perguntas, mesmo aquelas nas quais os mais velhos não acreditavam. Relata ainda a generosidade de pesquisadores que providenciaram, literalmente, um cantinho para que ele pudesse continuar suas pesquisas enquanto estagiava como residente em um hospital.
  • A curiosidade científica. O livro é um autorretrato da busca de um ser humano pelas respostas que ele próprio se coloca e dos brilhantes questionamentos aos achados de outros pesquisadores. Nós acostumamos nossos alunos a trabalhar nas nossas próprias perguntas e não nas deles.
  • O respeito e a valorização do trabalho dos outros. Kandel faz uma elegante revisão bibliográfica sobre fisiologia do cérebro, sobre aprendizagem, sobre memória. Contextualiza históricamente as contribuições dos precursores (entre eles Helmholz!!) reconhecendo as contribuições no contexto das limitações sociais e históricas.  Apresenta e valoriza aqueles que o influenciaram tanto pelo  conhecimento dos campos de estudo como pelo domínio de técnicas específicas. Nosso desconforto com os colegas “ao lado” pode ser medido pela ausência de citação de colegas brasileiros e latinos nos nossos papers!

Amilton Sinatora

2 respostas para A pesquisa de primeira linha em tribologia

  1. Giuseppe Pintaude disse:

    Meu caro Amilton
    Parte da minha angústia está descrita no teu texto e parte da minha rotina (feliz) da mesma forma. Os grupos devem achar os mecanismos de interação de forma rápida, sim, e os pesquisadores não podem esquecer de princípios da metodologia científica, de caráter e justificativas mais inter e intrapessoais como colocaste muito bem, com a bela referência médica que achaste. Um abraço e vamos em frente! Giuseppe

  2. Amilton disse:

    Meu caro Giuseppe

    O INES é um dos caminhos para maior interação. Ao mesmo tempo maior e, para nós engenheiros, rica em conhecimentos que não temos. São colegas muito qualificados e com enorme quantidade de equipamentos fantásticos de caracterização.

    amilton

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