Nicolelis e a Comissão do Futuro do MCT

10/03/2011

Miguel Nicolelis foi convidado e aceitou presidir a Comissão do Futuro do MCT, um cargo não remunerado e temporário.

O aceite gerou uma marolinha na imprensa, uma vez que o pesquisador havia manifestado sua opinião sobre a indicação de Aloizio Mercadante para o MCT da seguinte forma: “Estou curioso para saber qual é o currículo dele para gestão científica. Fiquei surpreso com a indicação, mas não o conheço. Não tenho a mínima idéia do seu grau de competência. Mas não fica bem para a ciência brasileira – um ministério tão importante – virar prêmio de consolação para quem perdeu a eleição. Não é uma boa mensagem. Mas talvez seja bom que o futuro ministro não seja um cientista de bancada, alguém ligado à comunidade científica. Assim, se ele tiver determinação política, poderá quebrar os vícios.”

Alguém na Folha de São Paulo levantou, por meio de um texto ambíguo, que o posto já havia amestrado o pesquisador, como se Mercadante fosse um toupeira que entrega a formulação da visão de futuro de seu ministério a um suposto desafeto, ou como se Nicolelis mudasse de opinião ao ganhar mais serviço para fazer!

A vantagem da marolinha é que temos mais uma pérola nicoleliana:
“Em resposta à nota publicada no Painel de 20/02, gostaria de declarar que, em momento algum, alterei quaisquer das críticas feitas ao atual modelo de gestão da ciência brasileira em decorrência do recente convite, feito pelo senhor Ministro da Ciência e Tecnologia, para presidir a Comissão do Futuro, proposta por esse ministério. Quando disse, em entrevista ao Estado de S. Paulo, em dezembro passado, que o Ministério da Ciência e Tecnologia não podia ser considerado como um prêmio de consolação, não estava emitindo nenhum juízo de valor sobre a pessoa do senhor ministro Aloízio Mercadante, mas simplesmente reivindicando o reconhecimento do novo governo à importância fundamental da área de ciência e tecnologia para o desenvolvimento do Brasil. Da mesma forma, desde o convite e anúncio formal do mesmo, no último dia 13/02, não emiti nenhuma declaração ou qualquer avaliação da presente gestão do MCT. Dessa forma, estranha-me ler nesse jornal a insinuação que, um convite para presidir, de forma voluntária e não remunerado, uma comissão temporária, destinada a elaborar e disseminar idéias que possam contribuir para o futuro da ciência brasileira, tenha servido como forma de cercear minhas opiniões. Na realidade, o objetivo dessa comissão é levantar todas críticas ao modelo vigente e propor soluções eficazes para que a ciência brasileira possa contribuir decisivamente para o desenvolvimento social e econômico do país. Sinceramente, Miguel Nicolelis”

A resposta acima pesquei no site Vi o mundo de Luiz Carlos Azenha num texto de Conceição Lemes, que recomendo, uma vez que o jornalão não publicou a resposta.

O meu único reparo é sobre uma das frases finais nas quais a jornalista afirma “A Folha mais uma vez briga com a verdade factual, aprontando outra  das suas.”  Eu tenho um amigo que diria “ao invés de suspeitar da má-fé, suspeite da incompetência”. Não posso citar o amigo (que não pode falar o que pensa numa grande instituição de pesquisa) mas tenho quase certeza de que o que falta é competência  para o jornal entender a realidade, ainda que de forma tosca.

Amilton Sinatora


Dá-lhe Nicolelis!

04/03/2011

O pesquisador Miguel Nicolelis emitiu críticas e considerações ao sistema brasileiro de C&T.

No divertido artigo de Alexandre Gonçalves publicado no Estado de São Paulo em 11 de Janeiro de 2011, “Einstein não seria pesquisador 1A do CNPq”, o pesquisador Miguel Nicolelis emite refrescantes críticas e considerações ao nosso sistema de C & T.

Destaco algumas:

1) A política científica e tecnológica (a nossa)
1.a)“Está ultrapassada. Principalmente a gestão científica”. “O mais importante nós temos: o talento humano. Mas ele é rapidamente sufocado por normas absurdas dentro das universidades.”
1.b)”Aqui no Brasil há a cultura de que, subindo na carreira científica, o último passo de glória é virar um administrador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) ou da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). É uma tragédia. Esses caras não tem formação para administrar nada. Nem a casa deles.”

2) Burocracia.“Achar que um cientista vai desviar dinheiro para fazer fortuna pessoal é absurdo. O processo de financiamento deve ser mais aberto, com mecanismos simples de auditoria. Além disso, deveria ser mais fácil importar insumos e, com o tempo, precisaríamos atrair empresas para produzi-los aqui.”

3) Ciência e Democracia no Brasil
3.a)“É uma atividade extremamente elitizada. Não temos a penetração popular adequada nas universidades. Quantos doutores são índios ou negros? A ciência deve ir ao encontro da sociedade brasileira.”
3.b)“Hoje, nós precisamos de cientista que joga futebol na praia de Boa Viagem. Precisamos do moleque que está na escola pública. As crianças precisam ter acesso à educação científica, à iniciação científica.”

4) Avaliação de mérito na academia
4.a)“ Na academia brasileira, as recompensas dependem do que eu chamo de “índice gravitacional de publicação”: quanto mais pesado o currículo, melhor. Ou seja, o cientista precisa colecionar o maior número de publicações – sem importar tanto seu conteúdo. Não pode ser assim. O mérito tem de ser julgado pelo impacto nacional ou internacional de uma pesquisa.”
4.b) “ Meu departamento na Universidade Duke nunca pediu meu índice de citação. Também nunca calculei. Quando sai do Brasil, achei que estava deixando um mundo de lordes da ciência. Fui perguntando nome por nome lá fora. Ninguém conhecia. Ninguém sabia quem era. Criamos uma bolha provinciana que deve ser estourada agora se o Brasil quer dar um salto quântico. ”

5) Como você se vê na academia
5.a) “Sou um pária. Não tenho o menor receio de falar isso. Sou tolerado. Ninguém chega para mim de frente e fala qualquer coisa. Mas, nos bastidores, é inacreditável a sabotagem de que fomos vítimas aqui em Natal nos últimos oito anos. Mas sobrevivemos.”
5.b)”Algumas pessoas ficaram ofendidas porque não fiz o beija-mão pedindo permissão para fazer ciência na periferia de Natal. Este ano, na avaliação dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), tivemos um dos melhores pareceres técnicos da área de biomedicina. E o nosso orçamento foi misteriosamente cortado em 75%. Pedi R$ 7 milhões. Recebemos R$ 1,5 milhão.”
5.c) “As pessoas têm medo de abrir a boca, porque você é engolido pelos pares. ”
5.d) “ De qualquer forma, o pessoal precisa entender que voltar para o Brasil é assumir um tipo especial de compromisso. Não é ir para Harvard, Yale. Você deve estar disposto a dar seu quinhão para o País porque ele ainda está em construção. Nem tudo vai funcionar como a gente quer. Vejo muita gente egoísta voltando para o Brasil. Os jovens precisam olhar menos para o umbigo e mais para a sociedade.”

6) Sobre os pesquisadores jovens.“ Atualmente, eles têm uma dificuldade tremenda de conseguir dinheiro porque não são pesquisadores 1A do CNPq. Você precisa ser um cardeal da academia para conseguir dinheiro e sobressair. Com um físico da UFPE, cheguei à conclusão de que Albert Einstein não seria pesquisador 1A do CNPq, porque ele não preenche todos os pré-requisitos – número de orientandos de mestrado, de doutorado.”

7) Sobre o obscurantismo na nossa ciência
7.a)“Para entender a que me refiro, basta participar de reuniões científicas e acompanhar a composição de uma mesa. Não há nada semelhante em lugar nenhum do mundo: perder três minutos anunciando autoridades e nomeando quem está na mesa. É coisa de cartório português da Idade Média. Cientista é um cidadão comum. Ele não tem de fazer toda essa firula para apresentar o que está fazendo. É um desperdício de energia, uma pompa completamente desnecessária.”
7.b)”Muitas vezes, os pesquisadores jovens não podem abrir a boca diante dos cientistas mais velhos. Eu ouço isso em todo o Brasil.” “Qualquer um pode me interpelar a qualquer momento. Qualquer um pode reclamar de qualquer coisa. Qualquer um pode fazer qualquer pergunta. E ninguém me chama de professor Nicolelis. Meu nome lá é Miguel. Por quê? Porque o cientista é algo comum na sociedade.”

Tem mais, mas eu vou parar por aqui pois preciso me manter no emprego e com financiamento estatal por mais 5 anos.

Amilton Sinatora


Hipótese sobre a fonte da burocracia anticiência

28/01/2011

..."sobrecarga gerada sobre o pesquisador por questões administrativas".

Richard Dawkins, na sua polêmica contra os deuses, nos explica que afirmações que não podem ser provadas não são tratáveis no âmbito da ciência. Ele usa o exemplo de um bule de chá girando em torno do sol, tomado de Bertrand Russell, a quem passo a palavra.

“ If I were to suggest that between the Earth and Mars there is a china teapot revolving about the sun in an elliptical orbit, nobody would be able to disprove my assertion provided I were careful to add that the teapot is too small to be revealed even by our most powerful telescopes. But if I were to go on to say that, since my assertion cannot be disproved, it is an intolerable presumption on the part of human reason to doubt it, I should rightly be thought to be talking nonsense. If, however, the existence of such a teapot were affirmed in ancient books, taught as the sacred truth every Sunday, and instilled into the minds of children at school, hesitation to believe in its existence would become a mark of eccentricity and entitle the doubter to the attentions of the psychiatrist in an enlightened age or of the Inquisitor in an earlier time.”

Eu chamo este bule de chá de deus de Dawkins. De minha parte, postulo que existe na mesma órbita do bule de chá de Dawkins, a 180 graus do mesmo, um inferno invisível aos nossos telescópios no qual demônios incansáveis elaboram infindáveis e intrincados formulários. O  preenchimento dos mesmos objetiva afastar pesquisadores dos laboratórios, condicionando-nos com o passar do tempo a concluir  que o melhor no auge da maturidade científica é ser chefe de alguma coisa. Lá também se elaboram regimentos, regras e procedimentos que, sob pena de execração pública, devem ser minuciosamente estudados, seguidos e aplicados como forma de garantir que não produzamos nada de útil ou expressivo e que os dias de trabalho cheguem ao fim com uma sensação cinzenta.

Execrado pelos que crêem e ignorado pelos que não crêem, uma vez que a afirmação não pode ser “desprovada”, este texto parece, portanto, a fundação de uma nova religião (provavelmente pouco lucrativa) ou um desabafo solitário. Mas nem tanto!

No jornal O Estado de São Paulo de 23 de janeiro de 2011, o jornalista Alexandre Gonçalves divulga a saga do pesquisador brasileiro Stevens Rehen, que viu seu material de pesquisa apodrecer na alfândega. Anvisa e a Receita, numa atitude progressista, se reuniram com o cientista e concluiram que o incorreto preenchimento dos formulários era a principal causa da morosidade e dos atrasos. Sobre a provável origem dos formulários, Glaucius Oliva, presidente do CNPq, considera que “um dos grandes entraves à ciência no país é a sobrecarga gerada sobre o pesquisador por questões administrativas”, sem contudo exorcizar a hipótese demono-astronômica levantada nesse texto.

Amilton Sinatora

Referências

http://en.wikipedia.org/wiki/Russell’s_teapot

O Estado de São Paulo, 23 de janeiro de 2011, pp 20 e 22. Alexandre Gonçalves “Prioridade é criar um novo marco legal”;  “Burocarcia ainda é um dos principais entraves à pesquisa científica no País” .

 


Mercadante ministro da ciência e tecnologia

26/01/2011

Segundo o Ministro,o Livro Azul terá papel central na sua administração.

O Ministério da Ciência e Tecnologia é o mais estratégico dos ministérios. Enquanto ministério da tecnologia, ele tem que gerir, estimular, fomentar, organizar a aplicação da ciência transformando conhecimento em produto interno bruto. Enquanto ministério da ciência, ele tem a função de lançar no presente as bases para que, no futuro, se possa transformar conhecimento em PIB.

A tarefa do “ministério da tecnologia” é  para já! Deve servir à estratégia vigente (qualquer que ela seja) e por isso é acompanhada do risco do imediatismo, das cobranças dos grupos de pressão e, por fim, sujeita à tentação da dispersão democratista dos recursos.

A tarefa do “ministério da ciência” é de apostar hoje em vetores de pesquisa para que no futuro alguns desses vetores representem conhecimento transformável em PIB, ou seja, para que no futuro tenhamos ciência para aplicar. Por isso, esta tarefa é sujeita às criticas daqueles que precisam antever um resultado para investir, é sujeita às cobranças dos que não entendem os ritmos e caminhos da construção da ciência, e é sujeita à tentação de seguir os modismos copiados do primeiro mundo quanto à construção do futuro.

O discurso de posse do Ministro Mercadante, como todo discurso de posse, apresenta as intenções ainda desinformadas da vivência no cargo e serve como uma importante declaração de intenções, que será evidentemente temperada pelo relacionamento com as pedras do caminho e com o conhecimento adquirido no percurso.

Um bom gestor deve saber fazer a escolha da sua prioridade. Minha leitura do discurso mostra que teremos um ministro predominantemente da tecnologia, que elegeu a aplicação do conhecimento existente como foco de sua gestão. Um parágrafo elucida este ponto. “De qualquer forma, o descolamento entre ciência e produção tem de ser superado. Pasteur afirmou que não há ciências aplicadas e sim aplicações da Ciência. Todo conhecimento científico pode e deve contribuir para aumentar a nossa competitividade e melhorar a qualidade de vida de todos os brasileiros”. *

Nessa toada e em parte anterior de seu discurso, o Ministro define sua visão econômica citando os seguidores de Schumpeter,  advogando a concepção “…que concebe a inovação como uma visão sistêmica, que articula organicamente todos os agentes envolvidos no processo”. O Ministro prossegue: “Coerentemente com tal modelo, precisamos articular de forma mais consistente, o saber gerado nas universidades e nos institutos de pesquisa com as necessidades tecnológicas do processo de produção industrial”. *

Para todos os que atuam em engenharia e em especial para nós do Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies, estas afirmativas são muito animadoras uma vez que pretendem reforçar e aprofundar ações com as quais estamos alinhados desde há pelo menos 25 anos.
Um exemplo é o projeto Desafios Tribológicos em Motores Flex Fuel, que surgiu a partir de uma solicitação de parceiros da indústria automotiva (GM, VW, FPT, PSA, PEUGEOT) bem como de fornecedores da cadeia produtiva (MAHLE, PETROBRAS, FUNDIÇÃO BALANCINS). Este projeto, que congrega docentes da USP, UNICAMP e UFABC, tem caráter pré-competitivo e um forte componente de formação de pessoal e de criação de conhecimento sobre a tribologia dos motores de combustão interna, de forma a apoiar o desenvolvimento sustentado de tecnologias para motores que utilizem biocombustíveis, tanto em suas empresas como nos centros de pesquisa acadêmicos.

Quanto ao papel e a visão do Ministro da Ciência, teremos que aguardar novos pronunciamentos ou mergulhar mais profundamente nos termos do discurso de posse e de suas referências, como o “Livro Azul” que, segundo o Ministro, “ terá, sem dúvida papel central na orientação de minha administração”. *

*Discurso de posse Ministério da Ciência e Tecnologia: http://www.mercadante.com.br/noticias/ultimas/pronunciamento-posse-no-ministerio-da-ciencia-e-tecnologia

Amilton Sinatora


Tribo Flex – um ano de tramitação na Fapesp

07/01/2011

Tribo Flex: reuniões mensais enquanto o projeto tramita.

No dia 23 de dezembro de 2010 completou um ano a tramitação do projeto de Tribologia de Motores Flex Fuel na FAPESP.

Nem sim nem não, mas a resposta da FAPESP já não é o que mais importa neste caso. Quando um projeto de inovação que congrega empresas do porte da GM, PSA, RENAULT, VW, MAHLE, PETROBRAS, FPT e três universidades paulistas tramita por um ano (pelo menos), fica evidente que há algo errado no sistema de P&D do Estado de São Paulo.

Uma negação expedita, digamos até abril do ano que finda, nos deixaria à vontade para recorrermos ao governo federal em busca de apoio. As sucessivas protelações nos trouxeram ao fim do mandato presidencial com conseqüente troca de postos nos órgãos federais, o que nos tolheu possibilidades de buscar ajuda no segundo semestre de 2010. Certamente, no início de 2011, quando as posições de mando nos órgãos federais estiverem estabelecidas, voltaremos a negociar neste âmbito.

Apesar da morosidade na tramitação, temos mantido reuniões mensais e conseguido fundos para o projeto. A PETROBRAS financiou um tribômetro multiuso adequado à avaliação de lubrificantes e de produtos de combustão que permitirá avanços experimentais ainda no primeiro semestre de 2011. Ao mesmo tempo, alguns dos temas do projeto vão avançando lentamente com verba de outros financiamentos ou com bolsas da mesma FAPESP. Transmitimos seguidamente às empresas que não se trata de descaso nem de desinteresse do governo paulista em apoiar o estudo da tribologia de motores FLEX, uma vez que há muitos usineiros no governo e todos interessados em expandir o uso do álcool combustível.

Ao mesmo tempo que sabemos dizer o que talvez não seja a causa, não sabemos dizer qual é a mesma. Pelo sim, pelo não ou ao menos para mudar de ares, a próxima reunião será dia 27 de janeiro em Curitiba, terra de RENAULT, na Universidade Técnica Federal do Paraná. Com isso avançaremos no caráter nacional de projeto, o que talvez nos permita recorrer com mais propriedade ao financiamento federal.

Amilton Sinatora


O uso do álcool em motores no Brasil desde 1919 e os motores Flex Fuel de 2010

12/01/2010
Os ensaios do Professor Evandro Mirra em seu livro “A Ciência que sonha e o verso que investiga” têm, cada um deles, um ensinamento registrado por quem faz a história da ciência no Brasil.
No ensaio “Inovação para um desenvolvimento sustentável” ele nos surpreende com os seguintes trechos que transcrevo como aperitivos do livro.
“….no início do século XX, quando foram realizadas as primeiras tentativas de utilização do etanol como combustível em motores de veículos, a partir de 1919, em Alagoas e Pernambuco, no Nordeste brasileiro…”
Em 1925 o presidente Epitácio Pessoa declararia que era importante substituir o petróleo uma vez que “ A produção mundial de petróleo começa a se tornar insuficiente para o consumo…”
“ ..o governo Vargas estabeleceu, em 1931 a obrigatoriedade da adição de álcool à gasolina em plano nacional” (…) “ O programa vigorou por vários anos até ser suspenso por razões econômicas, ao final de Segunda Guerra Mundial, com o argumento de que o baixo preço então vigente para a gasolina tornava o etanol pouco competitivo” (…) “ O legado de capacitação técnica e organizacional foi, contudo, extremamente significativo.  Múltiplos problemas foram abordados e resolvidos, envolvendo aspectos como rendimento das misturas carburantes; análise dos diversos tipos de álcool-motor fabricados; instalação das bombas de álcool, inspeção das usinas; verificação da qualidade da gasolina importada; regulagem dos carros que passaram a empregar o álcool.”
Aquele legado foi ampliado enormemente no período posterior a 1975 com o Pró-álcool, o desenvolvimento dos motores flex-fuel e os programas de bio combustíveis, mas estas são outras histórias.
Nada de (muito) novo sob o sol nos últimos cem anos!
Amilton Sinatora

Bolsas RHAE para mestres e doutores em empresas – no caminho certo!

17/11/2009
Dia quatro de novembro em Brasília, 14 empresas beneficiadas com bolsas RHAE para fixar mestres e doutores em atividades de inovação, apresentaram os projetos desenvolvidos por estes profissionais altamente qualificados.
As empresas que apresentaram trabalhos foram escolhidas entre as mais de 130 beneficiadas pelo edital de 2007 (20 milhões de reais). Elas tiveram tempo suficiente para desenvolverem suas atividades, obter resultados e amadurecerem as principais dificuldades.
Foi feito e apresentado um relatório dos resultados deste investimento público. Entretanto, o que me parece importante compartilhar foi o entusiasmo dos empresários e o compromisso dos bolsistas com as atividades inovadoras das empresas. Todos os projetos têm características de inovação e, em alguns casos, de invenções que estão sendo desdobradas em produtos, serviços ou processos.
Foi unânime destacar o papel do financiamento das bolsas como fator alavancador das atividades das empresas e muitos enfatizaram o importante papel de outras linhas de financiamento do CNPq, da FINEP e das fundações estaduais de apoio, na viabilização das atividades inovadoras das empresas, com destaque para a Fundação Araucária e da FAPESP.
O baixo valor das bolsas foi o vilão responsável pela dificuldade na contratação e manutenção de bolsistas, especialmente os de doutorado. Doutores bolsistas são em menor número do que mestres e mais frequentes em pequenas empresas já bem estruturadas e em SP.
A conclusão positiva desta dificuldade é que houve aumento da empregabilidade dos pós graduados e uma das soluções encontradas – tornar o bolsista sócio da empresa – mostra o desenvolvimento da visão empreendedora destes pequenos empresários com boas perspectivas para o país.
Amilton Sinatora


O PNAD de 2008 e o desgaste de moedas de ouro

16/10/2009
A  participação do trabalho na renda despencou de 50% em 1980 para 39,1% em 2005. Em resumo, cresceu em dez pontos percentuais a participação dos juros, dos lucro e dos aluguéis de imóveis na renda nacional e despencou do mesmo tanto a participação dos salários.
Se os salários perderam participação na renda nacional devido a criação de muitas novas empresas talvez tudo bem. Melhor ainda se estas pequenas empresas forem de alta tecnologia. Se a perda de participação dos salários dever-se a concentração de empresas e ao aumento dos lucros o quadro pode não ser tão bom para o futuro da pesquisa no país. Isto por que os grandes pacotes tecnológicos ainda estão acima da capacidade da nossa estrutura de P & D.
No caso de a perda de participação dos salários ter se devido ao aumento da participação dos juros, podemos antever grandes dificuldades para o trabalho de pesquisa em tribologia. Afinal, o único estudo tribológico que interessa a bancos é o desgaste de moedas de ouro como o feito na Inglaterra em 1798 por Sir Henry Cavendish para explicar o misterioso ?encolhimento? das moedas do reino.
Os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) trazem bons ou maus resultados dependendo de como são analisados. Permitem também uma breve reflexão sobre nosso país-continente e sobre as dificuldades que temos para fazer pesquisa.
O índice de Gini, que mede a desigualdade de renda, caiu de 0,567 em 1998 para 0,515 em 2008. Estamos melhor que El Salvador com 0,524 (2002) e pior que o Zâmbia que tinha 0,508 (2004). Para comparar, a Argentina tem 0,490 (2007), os Estados Unidos 0,450 (2007) e a Espanha 0,320 (2005).  Se os efeitos da crise não prejudicarem nosso progresso deveremos superar Zâmbia em um ou dois anos!
A  participação do trabalho na renda despencou de 50% em 1980 para 39,1% em 2005. Em resumo, cresceu em dez pontos percentuais a participação dos juros, dos lucros e dos aluguéis de imóveis na renda nacional e despencou do mesmo tanto a participação dos salários.
Se os salários perderam participação na renda nacional devido à criação de muitas novas empresas, talvez tudo bem. Melhor ainda se estas pequenas empresas forem de alta tecnologia. Se a perda de participação dos salários dever-se à concentração de empresas e ao aumento dos lucros, o quadro pode não ser tão bom para o futuro da pesquisa no país. Isto porque os grandes pacotes tecnológicos ainda estão acima da capacidade da nossa estrutura de P & D.
No caso de a perda de participação dos salários ter se devido ao aumento da participação dos juros, podemos antever grandes dificuldades para o trabalho de pesquisa em tribologia. Afinal, o único estudo tribológico que interessa a bancos é o desgaste de moedas de ouro como o feito na Inglaterra em 1798 por Sir Henry Cavendish para explicar o misterioso “encolhimento” das moedas do reino.
Amilton Sinatora

Três demandas globais e a tribologia

15/09/2009

Existem três grandes demandas mundiais que orientam políticas e, conseqüentemente, o desenvolvimento técnico: economia de energia, proteção do meio ambiente e melhoria do bem estar dos idosos. Elas fazem frente a três contingências do desenvolvimento da humanidade: uma insaciável demanda por energia, a degradação desenfreada do meio ambiente e o progressivo envelhecimento da população em todo o mundo.

As três demandas estão intimamente ligadas à tribologia e, portanto, à atuação do Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies e dos grupos de pesquisa que o constituem.
A economia de energia está diretamente relacionada com as perdas por atrito. Se estas são, por um lado, inexoráveis em todos os sistemas – uma decorrência inevitável das leis da física – por outro, estas perdas podem ser diminuídas com o emprego de lubrificantes, com a seleção de materiais que minimizem a força de atrito ou com projeto adequado dos componentes.
A proteção ao meio ambiente está associada às perdas por desgaste, com enormes consumos de materiais para repô-las. Basta, por exemplo, pensar no consumo de pneus de automóveis. Ao mesmo tempo, a proteção ambiental depende de diminuição do coeficiente de atrito para que os equipamentos possam funcionar com menores consumos de energia e, conseqüentemente, com menor emprego de combustíveis poluentes.
A melhoria do bem estar dos idosos passa pelo desenvolvimento de próteses dentárias, ortopédicas, cardíacas, de pele e outras, que permitam a substituição dos nossos órgãos desgastados pelos cada vez mais longos anos de existência. Como se vê, o bem estar de todos, em um futuro perfeitamente previsível, passará, inapelavelmente, pelo desenvolvimento de materiais ou de superfícies capazes de resistir a períodos cada vez maiores de funcionamento com segurança e conforto.
Amilton Sinatora

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