Dá-lhe Nicolelis!

04/03/2011

O pesquisador Miguel Nicolelis emitiu críticas e considerações ao sistema brasileiro de C&T.

No divertido artigo de Alexandre Gonçalves publicado no Estado de São Paulo em 11 de Janeiro de 2011, “Einstein não seria pesquisador 1A do CNPq”, o pesquisador Miguel Nicolelis emite refrescantes críticas e considerações ao nosso sistema de C & T.

Destaco algumas:

1) A política científica e tecnológica (a nossa)
1.a)“Está ultrapassada. Principalmente a gestão científica”. “O mais importante nós temos: o talento humano. Mas ele é rapidamente sufocado por normas absurdas dentro das universidades.”
1.b)”Aqui no Brasil há a cultura de que, subindo na carreira científica, o último passo de glória é virar um administrador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) ou da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). É uma tragédia. Esses caras não tem formação para administrar nada. Nem a casa deles.”

2) Burocracia.“Achar que um cientista vai desviar dinheiro para fazer fortuna pessoal é absurdo. O processo de financiamento deve ser mais aberto, com mecanismos simples de auditoria. Além disso, deveria ser mais fácil importar insumos e, com o tempo, precisaríamos atrair empresas para produzi-los aqui.”

3) Ciência e Democracia no Brasil
3.a)“É uma atividade extremamente elitizada. Não temos a penetração popular adequada nas universidades. Quantos doutores são índios ou negros? A ciência deve ir ao encontro da sociedade brasileira.”
3.b)“Hoje, nós precisamos de cientista que joga futebol na praia de Boa Viagem. Precisamos do moleque que está na escola pública. As crianças precisam ter acesso à educação científica, à iniciação científica.”

4) Avaliação de mérito na academia
4.a)“ Na academia brasileira, as recompensas dependem do que eu chamo de “índice gravitacional de publicação”: quanto mais pesado o currículo, melhor. Ou seja, o cientista precisa colecionar o maior número de publicações – sem importar tanto seu conteúdo. Não pode ser assim. O mérito tem de ser julgado pelo impacto nacional ou internacional de uma pesquisa.”
4.b) “ Meu departamento na Universidade Duke nunca pediu meu índice de citação. Também nunca calculei. Quando sai do Brasil, achei que estava deixando um mundo de lordes da ciência. Fui perguntando nome por nome lá fora. Ninguém conhecia. Ninguém sabia quem era. Criamos uma bolha provinciana que deve ser estourada agora se o Brasil quer dar um salto quântico. ”

5) Como você se vê na academia
5.a) “Sou um pária. Não tenho o menor receio de falar isso. Sou tolerado. Ninguém chega para mim de frente e fala qualquer coisa. Mas, nos bastidores, é inacreditável a sabotagem de que fomos vítimas aqui em Natal nos últimos oito anos. Mas sobrevivemos.”
5.b)”Algumas pessoas ficaram ofendidas porque não fiz o beija-mão pedindo permissão para fazer ciência na periferia de Natal. Este ano, na avaliação dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), tivemos um dos melhores pareceres técnicos da área de biomedicina. E o nosso orçamento foi misteriosamente cortado em 75%. Pedi R$ 7 milhões. Recebemos R$ 1,5 milhão.”
5.c) “As pessoas têm medo de abrir a boca, porque você é engolido pelos pares. ”
5.d) “ De qualquer forma, o pessoal precisa entender que voltar para o Brasil é assumir um tipo especial de compromisso. Não é ir para Harvard, Yale. Você deve estar disposto a dar seu quinhão para o País porque ele ainda está em construção. Nem tudo vai funcionar como a gente quer. Vejo muita gente egoísta voltando para o Brasil. Os jovens precisam olhar menos para o umbigo e mais para a sociedade.”

6) Sobre os pesquisadores jovens.“ Atualmente, eles têm uma dificuldade tremenda de conseguir dinheiro porque não são pesquisadores 1A do CNPq. Você precisa ser um cardeal da academia para conseguir dinheiro e sobressair. Com um físico da UFPE, cheguei à conclusão de que Albert Einstein não seria pesquisador 1A do CNPq, porque ele não preenche todos os pré-requisitos – número de orientandos de mestrado, de doutorado.”

7) Sobre o obscurantismo na nossa ciência
7.a)“Para entender a que me refiro, basta participar de reuniões científicas e acompanhar a composição de uma mesa. Não há nada semelhante em lugar nenhum do mundo: perder três minutos anunciando autoridades e nomeando quem está na mesa. É coisa de cartório português da Idade Média. Cientista é um cidadão comum. Ele não tem de fazer toda essa firula para apresentar o que está fazendo. É um desperdício de energia, uma pompa completamente desnecessária.”
7.b)”Muitas vezes, os pesquisadores jovens não podem abrir a boca diante dos cientistas mais velhos. Eu ouço isso em todo o Brasil.” “Qualquer um pode me interpelar a qualquer momento. Qualquer um pode reclamar de qualquer coisa. Qualquer um pode fazer qualquer pergunta. E ninguém me chama de professor Nicolelis. Meu nome lá é Miguel. Por quê? Porque o cientista é algo comum na sociedade.”

Tem mais, mas eu vou parar por aqui pois preciso me manter no emprego e com financiamento estatal por mais 5 anos.

Amilton Sinatora


Desgastes imateriais

13/01/2011

Nesse domingo chuvoso fui presenteado por Graham Greene com a seguinte passagem tribológica.
“ Se aquela catedral houvesse existido por cinco séculos, em vez de duas décadas, será que teria se revestido de uma atmosfera convincente, com o desgaste de passos e a erosão do tempo?”
O texto lembrou-me de uma foto de 2007 feita pelo amigo Mario Vitor Leite. Na época aluno de doutorado fazendo estágio em Portugal com apoio da fundação Santander, não resistiu à proximidade e visitou Santiago de Compostela.
Lá, flagrou a base da coluna que sustenta o santo  escavada por 800 anos de fé.

Graham Greene. “O americano tranqüilo. Editora Globo. 1a. Ed. 2007 p. 120

Amilton Sinatora


O TRIBO-BR, um passo adiante e dois atrás?

17/12/2010

Está aberto o debate para a realização do Tribo-BR II.

Entre 24 e 26 de novembro de 2010 estiveram no Rio de Janeiro muitos integrantes da elite tribológica mundial.

Foi gratificante assistir uma apresentação de um jovem engenheiro, mestre pela UFES, empregando uma teoria de Zum-Gahr para explicar resultados experimentais com o Professor Zum-Gahr assistindo a apresentação! Também foi muito gratificante ver todas as sessões tomadas e ver todas as apresentações brasileiras e latino-americanas discutidas pelos importantes participantes.

Dos 104 participantes, 54 vieram de 25 países. Somados aos 8 palestrantes convidados (ver lista no post “Três ou mais razões para participar do TRIBO-BR“), tivemos um congresso com 50% de estrangeiros, o que é muito raro por aqui. Nos corredores e durante os intervalos das sessões foram muitas as parcerias estabelecidas ou reforçadas. As empresas presentes  trouxeram problemas técnicos interessantes e se motivaram com as apresentações feitas.

Pude constatar que nossos estudos são muito consistentes e bem formulados, assim como os dos colegas da Colômbia, e que refletem as características juvenis de nossa ciência. Ou seja, são bons trabalhos mas com limitações de técnicas e de permanência no tema, características compatíveis com os menos de 20 anos de tribologia no Brasil. O caminho é promissor, o que se vê ao analisar o histórico de participação dos nossos pesquisadores no congresso Wear of Materials que se dá há pouco mais de 10 anos!

Então por que dois passos atrás?

Os pontos que chamaram minha atenção e de colegas do exterior foi a ausência completa de alunos de graduação, pós graduação e de pós doutorandos. Também me preocupou a ausência de pesquisadores do Pará, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e dos muitos físicos que atuam em tribologia ou áreas correlatas. A explicação para isso é simples, o custo da inscrição.

A realização de um segundo TRIBO_BR foi diversas vezes sugerida. Entretanto, sua realização requer a resolução das questões acima e o envolvimento de jovens (e motivados) tribologistas na sua organização. Não realizar um segundo encontro colocará em questão a realização do primeiro. O TRIBO_BR II está aberto para o debate.

Amilton Sinatora


Abrasão, o meio interfacial por outras óticas

27/08/2010

Tribologia + estudos de cominuição podem reduzir custos e riscos na construção de moinhos de minério.

Meu amigo Giuseppe Pintaúde, hoje professor na UTFPR em Curitiba abriu sua tese de doutorado sobre abrasão (“Análise dos Regimes Moderado e Severo de Desgaste Abrasivo Utilizando Ensaios Instrumentados de Dureza”) em 2002 com a seguinte citação:

“Ouça-me bem amor

Preste atenção, o mundo é um moinho

Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.

Vai reduzir as ilusões a pó”

A saudade do bom gosto do Giuseppe por música é o que primeiro me ocorre. Passamos no Laboratório de Fenômenos de Superfície um período com pouca música, pouca poesia, pouca leitura e pouca vida cultural. Coisas da objetividade exacerbada no trabalho científico e da confluência de desinteresses nestes temas dos que por aqui passaram recentemente.

Outra percepção é sobre a rara sensibilidade do poeta e da sua visão trágica da condição humana. Somos meros pedaços de chão triturados de volta à nossa original condição de pó. Somos fragmentos de coisas que já existiram, momentaneamente consolidados na forma de “nós mesmos” usufruindo desta propriedade transitória que é viver. A “coisa-nós”, lembra o poeta, é desagregada pela vida, reiniciando o ciclo de fazer parte de todas e quaisquer coisas que existam, complemento eu, metendo minha colher no trágico-sem-solução do poema.

A preocupação do poeta, o compositor Cartola, não deveria ser tratar intencionalmente do meio interfacial, o minério, cominuido entre corpos moedores e revestimento de moinhos, embora para mim seja esta outra forte imagem que a música sugere. O destino (tribológico) dos abrasivos não é tão estudado pelos tribologistas como o destino dos corpos (e contra corpos). Para muitos de nós o abrasivo é considerado, talvez, como algo menor ou menos científico, ou, então, como a causa de um problema: a abrasão.

Não é assim que pensam os colegas que estudam tratamento de minério, em particular os estudiosos da moagem como o Prof. Luis Marcelo Tavares da UFRJ. Para eles o estudo da fragmentação do abrasivo é um tema central de pesquisa que tem como foco a energia necessária no processo de moagem, de forma a poder modelar e dimensionar moinhos. Empregando uma abordagem reducionista extremamente racional e lúcida, o Prof. Tavares e equipe medem a energia necessária para fraturar grãos de um dado minério. Os resultados, integrados mediante trabalho experimental e de modelagem laborioso, estão no ponto de permitir análise dos fenômenos de cominuição em pequenos moinhos de laboratório e tem brilhantes perspectivas de evolução.

Acoplar a abordagem dos tribologistas e dos estudiosos da cominuição tem como pote de ouro no fim do arco iris enormes economias de matéria-prima, reduções nas paradas para manutenção e, principalmente, redução nos riscos e custos no dimensionamento de novos moinhos de grande porte.

Amilton Sinatora


Erosão, natureza e reflexões mais amplas

20/08/2010
Erosão do Solo

Grand Canyon, o mais espetacular “gasto por erosão” do planeta

É a forma de desgaste provocada pela ação de partículas duras incidentes sobre um sólido, carreadas ou não por um fluido.

A definição acima se aplica à ação dos  minérios nos chutes, nos dutos, no transporte de minérios ou de grãos de cereais e também se aplica adequadamente às formas mais espetaculares de erosão que conhecemos, a erosão na natureza.
A lua, que incorpora tanta simbologia, traz marcas indeléveis da incidência de “partículas”, no caso, os meteoros. Eles podem vir solitários como num “ensaio” mono-evento ou em nuvens. As condições peculiares da lua, em especial o vácuo, fazem com que as marcas de desgaste permaneçam para serem observadas. Em algumas delas é possível ver a interação de dois eventos, as crateras nas quais houve incidência de outro meteoro, evento raro e muito ilustrativo para os estudiosos do fenômeno na engenharia.
No grand canyon temos um dos mais espetaculares “gastos por erosão” do planeta. Neste, os abrasivos são carregados pela água do rio Colorado e as rochas mais duras da cabeceira do rio desgastam as mais moles rio abaixo, produzindo uma superfície de desgaste que é um fantástico cartão-postal.
Esta forma de erosão é a responsável pelos belos canyons do rio São Francisco entre Paulo Afonso e a barragem do Xingó, entre Piranhas (Alagoas) e Canindé (Sergipe). O assoreamento natural decorrente deste fenômeno muda o curso das águas e, como sabemos, é fortemente assistido em alguns lugares pela irresponsável destruição das matas ciliares e, como no parque Nacional da Chapada Diamantina,  pela mineração ilegal e irresponsável de diamantes.
Os exemplos de erosão causados pela propulsão de partículas pelo vento também são abundantes. No Paraná temos o parque Nacional de Vila Velha, onde a paisagem foi esculpida pelo vento do planalto resultando na fragmentação das rochas na forma de areia.
O conhecimento do mecanismo de desgaste visa nestes casos menos a predição de vida do que a reflexão sobre nossas atitudes e destino, tão bem expressa por Bob Dylan no trecho da sempre atual “Blowing in the Wind…”
“Yes, and how many years can a mountain exist,
Before it’s washed to the seas (sea)
Yes, and how many years can some people exist,
Before they’re allowed to be free?
Yes, and how many times can a man turn his head,
Pretending that he just doesn’t see?
The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind”
Amilton Sinatora

Desenvolvimento Regional e Tribologia

17/06/2010
Harvard & Leslie University

"Universidades geram renda para a região sem desvantagens da industrialização."

O Grupo de Pesquisa em Gestão de CT&I e Desenvolvimento Sustentável no Nordeste, ligado à UFRN,  promoveu um debate sobre empreendedorismo e inovação nas parcerias universidade-empresa. O geólogo Jerônimo Pereira dos Santos tratou das empresas incubadas no Rio Grande do Norte e do empreendedorismo numa apresentação que me prendeu a atenção pelas novas possibilidades de se tratar a questão da inovação.

Um ponto muito importante é que a questão da inovação no Rio Grande do Norte tem que considerar a quantidade e o porte das empresas, em menor número e muito menores do que em São Paulo, bem como a situação social específica. Esta situação pode ser analisada por meio da seguinte pergunta. A sociedade quer para o Rio Grande do Norte os problemas da industrialização que existem nos estados (países) industrializados?
Longe de ser óbvia a resposta incita a criatividade.
Por exemplo, no debate, ao fim das apresentações, aventou-se a hipótese de que o ensino universitário de qualidade pode, por si só, representar um pólo de crescimento regional. O paradigma mencionado foi a região de Boston na qual concentram-se universidades de alta qualidade, o que gera renda para a região sem muitas das desvantagens da industrialização. Pensou-se por exemplo que um programa que tivesse como meta “ganhar um prêmio Nobel” poderia catalizar iniciativas rumo a um ensino superior de qualidade. A relação desta idéia com a da iniciativa como a do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lyli Safra foi imediata. O Instituto beneficia a população local por meio de serviços de saúde, aumento de renda, fixação dos habitantes na região, educação de qualidade, tudo isto em torno de um projeto que em última instância é um projeto que visa pesquisa de ponta.
Outro caminho surgido no debate foi o de se acoplar iniciativas envolvendo alta tecnologia a algumas das potencialidades locais. A exploração da xelita (minério de tungstênio), vista em décadas anteriores como fonte de suprimento de minério e, portanto, como uma versão local da tradicional industria extrativa mineral, foi tratada como possível fonte de bissulfeto de tungstênio, um parente (não necessáriamente mais pobre!) do bissulfeto de molibdênio, um poderoso lubrificante. Esta abordagem, em que pese manter um aspecto extrativista no processo produtivo, focaliza uma aplicação que envolve tecnologia avançada de processamento na aplicação, por exemplo,  na indústria petrolífera local.
Amilton Sinatora

Gênero e Tribologia

10/06/2010

Garota cientista

Como aproveitar bem um feriado na quinta-feira e uma péssima viagem de avião Natal-Salvador-Belo Horizonte-São Paulo no sábado? A resposta é simples, basta ser convidado para proferir uma palestra em plena sexta-feira e nesta ganhar um bom livro para ler no avião.

Me explico.  O Grupo de Pesquisa em Gestão de CT&I e Desenvolvimento Sustentável no Nordeste ousadamente convidou-me para uma palestra sobre Parcerias Tecnológicas Universidade Empresa. Coordenada pelos professores Edilson da Silva Pedro e Efrain Pantaleón Matamorros, a palestra teve platéia cheia – para minha surpresa, confesso.  Para um pesquisador nada como fugir do frio de São Paulo e ter a casa cheia para um debate intenso e inteligente do qual tratarei oportunamente.
Ao final do debate fui presenteado pela jornalista Carla Giovana Cabral com um livro (ver abaixo) do qual ela é autora de um inteligente capítulo que trata da relação entre gênero e tecnologia e que serviu-me de refúgio pelo périplo de escalas de um voô infindável de volta ao inverno paulista.
No texto, a jornalista e professora da Escola de Ciências & Tecnologia da UFRN destaca entre outros aspectos importantes que o “número de mulheres na engenharia cresce, mas lentamente, e é ainda muito desigual em relação aos homens”. Ela mostra que segundo os dados mais recentes (2002) “a proporção feminina” havia chegado a 14%, perfil semelhante ao do México, Canadá e França. A porcentagem é pequena, porém expressiva diante do fato de que até 1924 haviam se formado 4 mulheres na Escola Politécnica do RJ; até 1945, 2 mulheres na Escola Politecnica da USP; 2 mulheres formadas até 1945 no Paraná, e  2 até 1950 na UFRGS!!
Quando o universo estudado foi o das instituições de pesquisa, encontrou-se entre o total dos pesquisadores 47% de mulheres, enquanto que no âmbito mais restrito da Engenharia e Ciência da Computação, este valor era de 25%, segundo os dados do censo do CNPq para 2004.
O cenário não é dos piores no que se refere à participação das mulheres,  mas quando o assunto é participação nas decisões de Ciência e Tecnologia verificou-se que “o espaço de decisão é predominantemente masculino” nas reitorias, pró e vice-reitorias, comitês assessores de ministérios do CNPq, da Capes e, até mesmo, nos comitês de Ciências Humanas. Ou seja, mesmo nas áreas onde são maioria as mulheres, elas não estavam em porcentagem expressiva nos postos de decisão.
Estas considerações requerem posições afirmativas e críticas para que homens e mulheres integrantes do sistema de pesquisa brasileiro não fiquem ingenuamente perpetuando esquemas mentais da revolução industrial. Entretanto, ao invés de embarcar pelo caminho do debate resolvi tentar contribuir com  um pequeno levantamento sobre o número de mulheres que concluíram pós graduação em tribologia no Laboratório de Fenômenos de Superfície, chegando aos seguintes dados.
TABELA

Orientadas LFS

Este primeiro levantamento mostra como no grupo, que se constituiu em 1995, as mulheres sempre estiveram entre os nossos orientados e que meu amigo, o Prof. Tanaka, talvez por ter três filhas, é quem por mais vezes orientou mulheres!!

Documentar e estudar com metodologia a participação das mulheres na tribologia brasileira certamente é uma atividade que aproximará mais ainda o Laboratório de Fenômenos de Superfície da Escola de Ciências & Tecnologia da UFRN, e esta de todos os grupos que estudam tribologia no Brasil.

O convite está feito!

Amilton Sinatora

Referência

Carla Giovana Cabral. Gênero, Ciência e Tecnologia, Cap. 12, pp.89-200. In Walter Antonio Bazzo; Luiz Teixeira do Vale Pereira; Irlan von Linsingen. Educação Tecnológica – Enfoques para o ensino da engenharia. Editora da UFSC. 2a. Ed. 2008. Editora da UFSC Florianópolis. 231p.


Publicar ou perecer (4). Razões mesquinhas.

04/06/2010
por marciookabe

Artigo

O debate muitas vezes acalorado sobre publicar ou não publicar, que ocorre mais intensamente na época de escrever ou de avaliar os relatórios CAPES, tem, como vimos em posts anteriores, razões filosóficas, históricas, educacionais.  O debate também reflete questões menores.

Analfabetismo funcional
A barreira da língua é um não desprezível obstáculo para se publicar. Para muitos, como eu mesmo, só é possível refletir e elaborar raciocínios um pouco mais sofisticados em português. Fazer o que? Muitas iniciativas existem. Exigir um pouco mais dos alunos nos exames de ingresso nos programas de pós graduação. No doutorado, em vez de se cobrar o conhecimento de outra língua estrangeira, exigir um nível mais elevado de conhecimento de inglês. Promover intercâmbio, patrocinar cursos de inglês, subsidiar tradutores, estudar inglês por conta nas poucas horas vagas são recursos que estudantes e colegas empregam.  Para os mais tímidos, que defendem o partido do não publicar devido a sua dificuldade com o inglês, vale experimentar os programas tradutores do AltaVista ou Google. Aposto que com o avanço destes programas teremos belas publicações vindas de alguns dentre os não publicantes profissionais.
Falta de tempo
De fato o tempo foge! Basta fazermos outra coisa que para “aquela uma” não sobra tempo. Em outras palavras, só fazemos o que priorizamos ou o que  somos obrigados a fazer. Não há como adiar uma emergência médica, como não parar os experimentos com a queda de energia, como não obedecer à última ordem do chefe. Por outro lado, também não há como publicar para os que priorizam a prestação de serviços, o ritmo circadiado do dia de trabalho, os exercícios de ante-sala da burocracia universitária, as comensuras do comissionamento político ou as infinitas conspirações acadêmicas. Também não há como publicar para os que incansavelmente se movem de um para outro experimento ou projeto de pesquisa nem para os que alternam diariamente seu campo de trabalho. Notar, por outro lado, que artigos para congresso são concluídos muito mais frequentemente do que artigos para revistas. Será que é apenas por que a exigência das revistas é maior ou será por que a entrega de artigos para congressos tem data improrrogável?
Terceiro mundismo
Esta última razão mesquinha tem dois lados.
De um lado, uma latente auto estima baixa. Nossos resultados são piores dos que os deles, nossa análise é menos erudita, nossa descoberta mais atrasada clama-se pelos corredores! É interessante notar, ao contrário, que muitos dos colegas que publicam bastante… ”se acham”, o que reflete bem, na minha opinião, o peso da autoestima. Cabe notar que a ciência não é feita (nem nunca foi) de obras acabadas, definitivas, lapidares. Vivemos (e sempre foi assim, de acordo com o método científico) numa roda-viva de fazer e melhorar o que foi feito, nem mesmo que melhorar signifique negar o que foi feito anteriormente. Afinal, ciência não é religião.
De outro lado temos um país a construir. Um país de terceiro mundo brutalmente desigual. Por isto é frequente, especialmente nas engenharias, que  nos dediquemos (não sem interesse financeiro) a estudos de melhorias dignos de compaixão, tanto pelo lado da perda inútil de tempo acadêmico, quanto por refletirem os baixíssimos padrões de competitividade de boa parte de nosso parque industrial. E, qual revista de primeiro mundo quer publicar o que já foi resolvido no século XIX ou início do XX? Talvez com o crescente peso da China no comércio mundial e, em decorrência, no mercado editorial venhamos a poder publicar estas re-reflexões técnico científicas, verdadeiros pentimentos acadêmicos.
Amilton Sinatora

A WIKI-TRIBOLOGIA brasileira

29/04/2010

Com o post sobre “o que é tribologia” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Tribologia) iniciamos uma contribuição sistemática para a WIKIPEDIA sobre nossa área de atuação.

Esta atitude muito simples decorre da inclusão desta atividade – fazer, apresentar, discutir e “postar o post” – entre as atividades didáticas obrigatórias dos alunos que cursam minha disciplina de pós graduação “PME 5873 – Introdução ao estudo do desgaste”. Em outras palavras, preparar e postar “valem nota”.

Com isto, creio, estimula-se no aluno uma visão menos privatista do conhecimento, obrigando-o a compartilhar uma pequeníssima parcela do que ele aprendeu. Numa escola de engenharia isto não é uma atividade fácil nem óbvia. Afinal os engenheiros são treinados para a ação e apropriação individual.

Do ponto de vista da tribologia no Brasil, a contribuição aponta um caminho, o da difusão dos conhecimentos de nossa área de atuação para um público imensamente mais amplo do que aquele que freqüenta nossas salas de aula.

Em segundo lugar, abrimos o debate público sobre conceitos de tribologia uma vez que a WIKIPEDIA é um instrumento aberto que acolhe sem ressalvas alterações e melhorias.

Quem sabe se ampliando a difusão dos conceitos e promovendo intensamente o debate não damos passos para consolidar a tribologia como uma das áreas do conhecimento na qual nosso país é excelente e reconhecido?

Os temas oferecidos aos alunos foram os que listamos abaixo e que deixo como sugestão para colegas que desejem “postar” ampliando a WIKI-TRIBOLOGIA brasileira.

  • Definição de tribologia
  • Definição de sistema tribológico ou tribossistema
  • Definição de força de atrito
  • Definição de coeficiente de atrito
  • Definição de desgaste
  • Definição e tipos de desgaste por deslizamento
  • Definição de desgaste por partícula dura e a diferenciação entre erosão e abrasão
  • Definição de cavitação
  • Definição dos regimes severo e moderado de desgaste
  • Definição de regime permanente e running in em desgaste
  • Definição de lubrificação
  • Definição dos regimes de lubrificação
  • Definição de área real e área aparente de contato
  • Definição de tipos de contato conforme e não conforme

Amilton Sinatora


Um novo equipamento para teste de próteses

22/04/2010
A agência USP de notícia trouxe  neste mês uma notícia importante para os estudiosos de tribologia. Na Escola Politécnica (Poli) da USP acaba de ser desenvolvido o Simulador Multiaxial de Movimento Humano. “Trata-se do primeiro equipamento nacional capaz de testar próteses ortopédicas de articulações como quadril, joelho, coluna, ombro e tornozelo, comercializadas no Brasil. De acordo com o engenheiro e doutorando André Luís Lima Oliveira, a máquina encontra-se em funcionamento e realiza ensaios especificados pela normas internacionais para controle de qualidade que estão sendo implantadas no País”.
A notícia segue com uma análise mais detalhada do funcionamento deste equipamento para ensaios de desgaste e fala sobre a importância do mesmo. Recomendo aos interessados a leitura e o contato com o inventor, o engenheiro André Luís Lima Oliveira, ou com o orientador do trabalho, o Prof. Dr. Raul Gonzalez Lima – respectivamente aluno de doutorando e professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica da USP.
A questão de confiabilidade das próteses que abordamos no post Falhas tribológicas de próteses de fêmur poderá ser adequadamente investigada com o equipamento desenvolvido ou, melhor, com uma bateria de equipamentos como o desenvolvido! Isto porque para aplicações in vivo é fundamental conhecer a durabilidade, ou seja, desenvolver modelos preditivos de vida média. Como a média não gera conforto nestes casos (afinal se a SUA prótese quebra com 3 anos não vai lhe interessar se a vida média é de dez ou vinte anos) é fundamental levantar experimentalmente a distribuição de probabilidade de falha por desgaste das próteses. Apenas com estes dois dados, vida média e distribuição de probabilidade de falhas, será possível oferecer garantias com base ética para os pacientes necessitados.  Sobre a questão do desenvolvimento de modelos de desgaste ver Como estão os modelos e equações preditivas de desgaste?.
Outra oportunidade que se abre com a construção e validação do equipamento de ensaio de desgaste de próteses é a de realizar experimentos com abordagem multidisciplinar integrando aspectos da engenharia mecânica e de medicina, como já vem ocorrendo, ampliando-os com a inclusão da análise de aspectos de engenharia dos materiais, de tribologia, de química, física, biologia…. Esta oportunidade não depende obviamente apenas da existência do equipamento, mas da perspectiva aberta e colaborativa de trabalho implantada pelo Prof. Raul Lima no Laboratório de Engenharia Ambiental e Biomédica (LAB).
Por fim, cabe chamar a atenção para os colegas pesquisadores e estudantes dos grupos de pesquisa que integram o Instituto Nacional de Engenharia de Superfícies para esta magnífica oportunidade de colaboração que permitirá avaliar em escala mais próxima do uso real os desenvolvimentos que o Instituto realiza visando aplicação biológica.
Amilton Sinatora

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